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China Produz Metade do Aço do Planeta e Isso Muda Tudo na Farmácia | Top 50 Países Maiores Produtores

China Produz Metade do Aço do Planeta e Isso Muda Tudo na Farmácia | Top 50 Países Maiores Produtores
#BrazilSFE #China #Aço #TerrasRaras #Grafite #Alumínio #Arroz #Farmacêutica #SupplyChain #MatériasPrimas #Carvão


Série: Consultores, Propagandistas e Representantes


A concentração de poder produtivo em um único país raramente é assunto de uma única indústria. Quando esse país é a China e quando o portfólio de produtos vai do aço bruto ao grafite, do arroz ao cimento, das terras raras aos suínos, o debate deixa de ser geopolítico e passa a ser operacional. Cada cadeia produtiva do planeta, sem exceção, toca algum ponto dessa teia. A indústria farmacêutica não é diferente, e talvez seja a que mais tenha a perder caso não compreenda essa dependência com profundidade.


Top 50 Países Maiores Produtores

Nenhuma outra nação concentra tantas lideranças simultâneas em commodities industriais, agrícolas e tecnológicas na lista TOP 50 dos maiores produtores mundiais. A China produz 50% do aço mundial, 54% do carvão global, 59% do alumínio refinado, 77% da grafite, 69% das terras raras e ainda responde por 26% do arroz e 18% do trigo colhidos no planeta a cada ano. Quando se adiciona a isso a liderança na produção de suínos, com 50% da carne suína global, e o domínio absoluto no cimento, com 55% da produção mundial, o tamanho do fenômeno começa a fazer sentido. 

Fonte: https://www.worldatlas.com/industries/top-10-steel-producing-countries-in-the-world.html


Desconhecer essa realidade não é uma opção para quem trabalha com planejamento de supply chain farmacêutico. A dependência da indústria de medicamentos em relação à base produtiva chinesa vai muito além do que aparece nos relatórios de compliance. Ela está nas embalagens de alumínio, nos equipamentos de aço inox, nos eletrodos de grafite dos fornos elétricos que fundem ligas metálicas usadas em instrumentais cirúrgicos, e nos compostos de terras raras presentes em equipamentos de diagnóstico por imagem. Compreender essa teia não é tarefa opcional. É pré-requisito para decisões estratégicas.


China — com algumas presenças no ranking:

  • Aço bruto (#2)
  • Carvão (#4)
  • Alumínio (#9)
  • Arroz (#11)
  • Trigo (#17)
  • Ouro (#23)
  • Terras raras (#32)
  • Grafite (#40)
  • Suínos (#44)
  • Cimento (#49)


A produção de 1.005 milhões de toneladas de aço em 2024 posiciona a China em um nível que nenhum outro país sequer se aproxima. A Índia, segunda colocada, produziu cerca de 144 milhões de toneladas no mesmo período. A diferença não é de escala. É de outra ordem de grandeza. Para a indústria farmacêutica, isso significa que praticamente todo equipamento de fabricação, todo reator, toda autoclave, toda estrutura de biorreatores de aço inox que equipa um laboratório no mundo tem alguma fração de sua cadeia de fornecimento conectada à siderurgia chinesa. 

Fonte: https://www.worldatlas.com/industries/top-10-steel-producing-countries-in-the-world.html


Não é exagero afirmar que o alumínio chinês está em todo lugar dentro de uma planta farmacêutica. Blísteres de medicamentos, tampas de frascos, folhas laminadas de embalagens primárias e secundárias, perfis estruturais de salas limpas. Com 41 milhões de toneladas produzidas anualmente e 59% do mercado global, a China não apenas domina o alumínio. Ela define o preço, o ritmo e a disponibilidade desse insumo para toda a cadeia downstream. Qualquer ruptura nessa produção se traduz, em semanas, em pressão sobre os custos de embalagem farmacêutica em todos os continentes. 

Fonte: https://www.statista.com/statistics/226459/crude-steel-production-in-china-by-month/


Dirigir a atenção para as terras raras é entender por que o debate sobre soberania industrial voltou com força ao centro das discussões regulatórias em todo o mundo. Com 69% da produção global e 37% das reservas conhecidas, a China controla o acesso a elementos como neodímio, lantânio, cério e gadolínio, que são componentes essenciais em equipamentos de ressonância magnética, tomógrafos, aparelhos de radioterapia e sensores médicos de alta precisão. Qualquer restrição de exportação imposta por Pequim nesse segmento reverbera imediatamente nos orçamentos hospitalares e nos cronogramas de expansão de parques tecnológicos em saúde. 

Fonte: https://ourworldindata.org/countries-critical-minerals-needed-energy-transition


Um dado que poucos gestores farmacêuticos colocam na sua matriz de risco é a posição da China no grafite. Setenta e sete por cento do grafite natural extraído no mundo vem de minas chinesas. O grafite é componente essencial nos eletrodos usados em fornos elétricos de fusão, nos anodos de baterias de íons de lítio que alimentam equipamentos portáteis de saúde e no processamento de materiais de carbono usados em filtros e membranas laboratoriais. A dependência é real e pouco discutida fora dos círculos de mineração crítica. 

Fonte: https://ourworldindata.org/countries-critical-minerals-needed-energy-transition


Integrando essa análise ao campo alimentar, o arroz merece atenção específica. A China colhe 209 milhões de toneladas por ano, representando 26% da produção mundial. O amido de arroz é amplamente utilizado como excipiente farmacêutico em comprimidos, cápsulas e pós para reconstituição. A farmacopeia americana, a europeia e a brasileira reconhecem o amido de arroz como excipiente oficial. Uma contração significativa na produção chinesa dessa commodity se traduz, portanto, em pressão direta sobre o custo e a disponibilidade de um excipiente de uso cotidiano na fabricação de medicamentos. 

Fonte: https://chinadata.live/data/rice-production-china-vs-world/


Zelar pela diversificação de fornecedores deixou de ser recomendação de consultores e passou a ser exigência regulatória em vários países após as rupturas de cadeia observadas nos últimos anos. A FDA, a EMA e a Anvisa intensificaram as revisões de Drug Master Files e de APIs com origem concentrada em um único país. O contexto não é abstrato. Ele é diretamente moldado pelo peso que a China tem como fornecedora de ingredientes farmacêuticos ativos, de intermediários de síntese e de insumos industriais que suportam toda a manufatura de medicamentos globalmente.



Bernardo, assim como milhares de profissionais de supply chain farmacêutico no Brasil e no mundo, enfrenta hoje uma questão concreta: como montar um plano de contingência para insumos cuja origem é majoritariamente chinesa quando não existe, em curto prazo, alternativa de escala equivalente? A resposta honesta é que não existe fórmula simples. Mas existe um caminho que começa pelo mapeamento preciso das dependências e pela construção de relações com fornecedores alternativos, mesmo que menores, em países como Índia, Brasil e Indonésia.


O trigo, com 140 milhões de toneladas produzidos anualmente pela China e participação de 18% no total global, alimenta uma cadeia que vai do amido de trigo, excipiente reconhecido pelas principais farmacopeias, até o glúten, proteína usada em pesquisas de encapsulamento e como agente de revestimento em formulações de liberação modificada. A China é, simultaneamente, o maior produtor e o maior consumidor de trigo do mundo, o que significa que pouco desse volume chega ao mercado internacional. Mas as variações de produção impactam preços globais e afetam toda a cadeia a jusante. 

Fonte: https://databoks.katadata.co.id/en/agroindustry/statistics/685b997421376/china-the-worlds-largest-wheat-producer-in-20242025


A produção suína chinesa, que representa 50% do total mundial com 57 milhões de toneladas anuais, conecta-se à farmácia de um modo que surpreende quem não conhece o setor de excipientes: gelatina de grau farmacêutico, cápsulas duras e moles de gelatina, e peptídeos utilizados em formulações cosmecêuticas têm origem majoritária em subprodutos da suinocultura. A concentração dessa produção na China levanta questões práticas sobre rastreabilidade, padrões sanitários e continuidade de fornecimento para fabricantes de cápsulas que operam sob normas GMP internacionais.


Nunca foi tão urgente, para o setor farmacêutico global, desenvolver uma visão integrada da geopolítica de matérias-primas. O carvão chinês, com 4,77 bilhões de toneladas e 54% do total mundial, é o combustível que aquece boa parte da matriz energética que alimenta as indústrias de síntese química e de fermentação industrial no próprio país. Qualquer compromisso de descarbonização assumido pela China tem impacto direto sobre o custo de produção de APIs e intermediários farmacêuticos fabricados dentro de suas fronteiras. 

Fonte: https://www.visualcapitalist.com/the-worlds-mineral-production-by-country/


O cimento, com 2 bilhões de toneladas e 55% da produção global, pode parecer distante da farmacêutica à primeira vista. Mas é o insumo que ergue as plantas industriais, os centros de distribuição, os hospitais e os complexos de pesquisa que sustentam toda a infraestrutura de saúde mundial. Uma desaceleração abrupta na construção civil chinesa, como a que o mercado imobiliário do país tem experimentado, reduz a demanda interna por cimento e pressiona os preços globais, criando janelas de oportunidade ou de risco para projetos de expansão de capacidade produtiva farmacêutica em economias emergentes. 

Fonte: https://www.visualcapitalist.com/the-worlds-mineral-production-by-country/


Estratégias comerciais de laboratórios multinacionais que operam no Brasil precisam considerar a China não apenas como mercado consumidor, mas como variável de custo e de risco em toda a cadeia de valor. O preço do blíster de alumínio que embala um comprimido vendido em São Paulo começa a ser definido em uma fundição chinesa. O custo do reator de aço inox que produz um biológico em Campinas passa por uma usina siderúrgica em Hebei. Essa linearidade não é metáfora. É logística.


Redobrar a atenção sobre alternativas de sourcing é, portanto, menos uma questão de preferência ideológica e mais uma decisão de gestão de risco empresarial. Países como a Índia têm avançado significativamente na produção de APIs genéricos. O Brasil tem potencial real para escalar a produção de excipientes derivados de soja e cana. A Austrália lidera o lítio. Mas nenhum deles, individualmente ou em conjunto, substitui a China no curto prazo. Essa é a realidade que precisa ser dita com clareza nos fóruns de planejamento estratégico do setor.


Seriam necessários décadas de investimento coordenado para redistribuir de forma significativa a cadeia produtiva que hoje está concentrada na China. Isso não significa paralisia. Significa urgência. As empresas que começarem agora a mapear, diversificar e qualificar fornecedores alternativos terão vantagem competitiva real quando, não se diz se, uma ruptura de maior escala ocorrer. A história recente já forneceu avisos suficientes para quem quiser ouvi-los.


O profissional que atua na interface entre o campo comercial e o técnico-científico da indústria farmacêutica tem, diante desse cenário, uma responsabilidade que vai além das metas trimestrais. Compreender o mapa produtivo global, identificar os pontos de concentração e de fragilidade, e traduzir isso em ações concretas de mitigação de risco é uma competência que diferencia equipes medianas de equipes verdadeiramente estratégicas. A China não é um problema a ser evitado. É uma realidade a ser compreendida, gerenciada e, quando possível, parcialmente substituída com inteligência e planejamento.


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