A maior economia do mundo não chegou a essa posição apenas pela força financeira dos seus mercados ou pela sofisticação do seu sistema tecnológico de acordo com a lista TOP 50 dos maiores produtores mundiais. Chegou, em parte, porque controla com eficiência brutal três cadeias produtivas que alimentam o planeta e movem a indústria global: petróleo, milho e soja. Cada uma dessas commodities tem um papel que vai muito além do que aparece nos noticiários de economia. Elas sustentam, silenciosamente, boa parte da cadeia de produção farmacêutica mundial.
Não existe medicamento industrializado sem petróleo. Essa afirmação pode parecer provocadora, mas é tecnicamente precisa. Polímeros de embalagem, solventes de síntese, plastificantes, lubrificantes industriais, resinas para revestimento de comprimidos, bases para pomadas e cremes, parafinas farmacêuticas. Tudo isso tem origem direta ou indireta na cadeia petroquímica. E os EUA, com 20,1 milhões de barris produzidos por dia e 22% do total mundial, são o epicentro dessa cadeia.
Fonte: https://www.statista.com/statistics/273504/number-of-internet-users-worldwide
Deslocar essa dependência em curto prazo é uma impossibilidade técnica e econômica que os próprios defensores da transição energética reconhecem. A indústria farmacêutica global consome derivados de petróleo em praticamente todas as etapas do seu processo produtivo, da síntese ao descarte. Compreender como a produção americana de petróleo influencia o custo, a disponibilidade e a segurança da cadeia farmacêutica é, portanto, uma competência estratégica que nenhum gestor do setor pode negligenciar.
EUA — com três presenças no ranking
- Petróleo (#3 — 20,1 M bpd — 22% mundial — reservas: 3,7%)
- Milho (#14 — 390 M t — 32% mundial)
- Soja (#19 — 119 M t — 28% mundial)
A revolução do xisto, que catapultou os EUA ao topo da produção mundial de petróleo a partir de 2018, transformou o país de importador líquido em exportador dominante. Com reservas provadas correspondentes a 3,7% do total global e uma capacidade de extração que supera a da Arábia Saudita e da Rússia combinadas em volume diário, os EUA redefiniriam para sempre a geopolítica energética mundial. Para a farmacêutica, isso significou maior estabilidade relativa no fornecimento de matérias-primas petroquímicas no mercado ocidental, mas também maior exposição às oscilações de preço ditadas pelo mercado americano.
Fonte: https://investingnews.com/daily/resource-investing/energy-investing/oil-and-gas-investing/top-oil-producing-countries/
Não menos relevante é o papel do milho americano na cadeia farmacêutica. Com 390 milhões de toneladas produzidas anualmente e 32% do total mundial, os EUA são, de longe, o maior produtor desta cultura. O que poucos fora do setor de excipientes sabem é que o amido de milho é um dos insumos farmacêuticos mais utilizados no mundo, presente em comprimidos como desintegrante, diluente e agente de deslizamento, reconhecido oficialmente pela USP, pela Farmacopeia Europeia e pela Farmacopeia Brasileira.
Fonte: https://scihub101.com/sustainability/countries-that-produce-the-most-food
Determinadas variações climáticas no Meio-Oeste americano, a chamada região do Corn Belt, têm o poder de alterar o preço do amido de milho grau farmacêutico em todo o mundo em questão de semanas. Esse mecanismo de transmissão de choque climático para o custo de produção de medicamentos é real, documentado e ainda subestimado nos planos de gestão de risco da maioria dos laboratórios. A dependência não é apenas de quantidade. É de qualidade: o amido de milho americano possui especificações técnicas consolidadas que facilitam sua aprovação em registros sanitários internacionais.
O Brasil Que Alimenta o Planeta
China Produz Metade do Aço do Planeta e Isso Muda Tudo na Farmácia
Os EUA Dominam o Petróleo, o Milho e a Soja — e a Farmácia Paga a Conta
A Austrália Extrai Mais da Metade do Ferro do Mundo — e Isso Chega até Sua Farmácia
A Índia Produz Mais Leite Que Qualquer País do Mundo — e a Farmácia Sente Isso
O Chile Controla um Quarto do Cobre do Mundo — e Isso Está Dentro do Seu Hospital
O Vietnã Produz 17% do Café do Mundo e Quase Ninguém na Farmácia Sabe Disso
O México Produz 28% do Abacate do Mundo — e a Ciência Farmacêutica Quer Essa Fruta
A Argentina É o Terceiro Maior Produtor de Soja do Mundo — e Processa Mais do Que Planta
Reforçando ainda mais a presença americana na cadeia farmacêutica, a soja dos EUA completa uma tríade de insumos de altíssima relevância. Com 119 milhões de toneladas produzidas na safra 2024/25 e 28% do mercado global, os EUA são o segundo maior produtor mundial, atrás apenas do Brasil. A lecitina de soja americana, amplamente utilizada como emulsificante em formulações farmacêuticas e nutracêuticas, possui especificações bem estabelecidas nos mercados regulatórios da FDA e da EMA, facilitando sua incorporação em produtos destinados aos mercados mais exigentes do planeta.
Fonte: https://soygrowers.com/news-releases/how-does-u-s-soybean-production-compare-to-brazil/
Uma dimensão adicional que conecta a soja americana à farmacêutica é o mercado de fitosteróis. Derivados do óleo de soja, os fitosteróis são precursores utilizados na síntese de hormônios esteroides, incluindo corticosteroides, progestinas e andrógenos. Essa cadeia de síntese, que começa em um campo de soja no Iowa ou no Illinois, termina em um comprimido anticoncepcional ou em um creme de corticoide vendido em qualquer farmácia do mundo. A origem raramente aparece na bula, mas está lá.
Zelar pela compreensão dessas conexões é uma responsabilidade que recai sobre todos os níveis da organização farmacêutica, do técnico de laboratório ao diretor de operações. O petróleo americano define o custo do polietileno que forma o frasco do xarope. O milho americano está no comprimido que desintegra na boca do paciente. A soja americana está na cápsula mole que libera o princípio ativo no intestino. Essa presença é invisível para o consumidor final, mas absolutamente tangível para quem projeta formulações e gerencia custos industriais.
Bernardo, um gerente de compras de uma indústria farmacêutica de médio porte, provavelmente já negociou amido de milho sem saber exatamente onde ele foi cultivado. Essa distância entre quem compra e quem produz é comum no setor, mas representa um gap estratégico relevante. Empresas que constroem inteligência sobre a origem de seus insumos tomam decisões melhores, antecipam pressões de preço com mais eficiência e constroem argumentos mais sólidos nas negociações com fornecedores.
A produção americana de petróleo, milho e soja está sujeita a um conjunto de variáveis que nenhum planejador pode ignorar: política comercial, tarifas de exportação, acordos bilaterais, condições climáticas e decisões do Federal Reserve que afetam o dólar e, por consequência, o custo de importação dessas commodities por países como o Brasil. Um dólar mais forte encarece imediatamente a importação de amido de milho, lecitina e derivados petroquímicos de origem americana para indústrias farmacêuticas brasileiras.
No contexto da indústria farmacêutica brasileira, onde boa parte das embalagens primárias utiliza filmes plásticos derivados de petroquímicos e onde o amido de milho americano compete diretamente com o amido de mandioca nacional, as oscilações da produção e da política comercial americana têm impacto direto sobre margens, preços ao consumidor e decisões de substituição de excipientes. Essa dinâmica exige monitoramento constante e capacidade de resposta ágil por parte das equipes de desenvolvimento de formulações.
Um aspecto frequentemente esquecido é o papel dos EUA como maior exportador agrícola do mundo, com aproximadamente 171 bilhões de dólares em exportações anuais, posição que está sendo disputada palmo a palmo pelo Brasil. Essa competição não é apenas comercial. Ela define rotas logísticas, capacidade de armazenamento, infraestrutura portuária e, em última análise, o custo de frete de insumos agrícolas que chegam às indústrias farmacêuticas de todo o mundo.
Fonte: https://www.agbull.com/ag-production-eight-countries-hold-every-crown/
Identificar os pontos de intersecção entre a produção americana de commodities e a cadeia farmacêutica global não é exercício acadêmico. É uma ferramenta de gestão. Empresas que mapeiam essas conexões conseguem identificar com antecedência quando um aumento nos preços do petróleo no Golfo do México vai pressionar o custo dos frascos plásticos seis meses depois, ou quando uma seca no Corn Belt vai elevar o preço do amido farmacêutico na próxima rodada de contratos com fornecedores.
Somar a esse cenário a crescente demanda americana por biocombustíveis, particularmente etanol de milho, adiciona uma camada de complexidade relevante. Quando os preços do etanol sobem nos EUA, mais milho é direcionado para combustível e menos para a cadeia alimentar e de excipientes. Esse desvio de oferta pressiona o preço do amido de milho grau alimentício e farmacêutico globalmente, criando um efeito de competição entre a agenda energética e a agenda farmacêutica pelo mesmo grão.
Fonte: https://scihub101.com/sustainability/countries-that-produce-the-most-food
A geopolítica americana também molda o acesso a esses insumos para países em desenvolvimento. Sanções comerciais, tarifas recíprocas e acordos preferenciais de comércio definem quem compra a que preço. O Brasil, por exemplo, exporta soja para os EUA em volumes modestos, mas concorre diretamente com a soja americana nos mercados da China e da Europa. Essa competição afeta os preços globais da oleaginosa e, por extensão, o custo dos derivados de soja utilizados pela indústria farmacêutica brasileira.
A indústria farmacêutica que opera no Brasil e que depende de insumos com origem americana, seja diretamente ou via cadeia petroquímica, precisa incorporar o monitoramento da produção americana de petróleo, milho e soja como parte rotineira do seu processo de inteligência de mercado. Isso não é sofisticação excessiva. É o nível mínimo de consciência estratégica que o ambiente competitivo atual exige de qualquer organização que pretenda operar com eficiência e resiliência.
Estar atento a esse mapa produtivo é, em última análise, uma forma de proteger o acesso do paciente ao medicamento. Quando a cadeia de suprimentos falha, quem sente primeiro não é o laboratório. É a farmácia. Depois, é o paciente. Os EUA, com seu triplo domínio sobre petróleo, milho e soja, ocupam um lugar central nesse mapa que nenhum profissional sério do setor farmacêutico pode se dar ao luxo de ignorar.
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