Merck (MSD) se divide e Keytruda segue solo — a Big Pharma entra na era do “Patent Cliff”
A decisão recente da Merck de separar seu negócio oncológico não é apenas uma reorganização corporativa: reflete a realidade mais ampla que grandes farmacêuticas enfrentam — o “Patent Cliff” chegou, e o setor se prepara coletivamente para sobreviver ao fim dos medicamentos “blockbuster”.
Aqui estão os principais pontos.
1️⃣ O gatilho: dependência extrema de um único medicamento de grande porte
Em 2025:
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Receita da Merck: 65,0 bilhões de dólares
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Segmento farmacêutico: 89% da receita total
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Receita oncológica: 35,4 bilhões de dólares (+8,4%)
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Apenas o Keytruda: 31,6 bilhões de dólares (+7%)
Isso significa que:
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89% da receita oncológica
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54% da receita farmacêutica
vieram de um único medicamento.
Mas o Keytruda perde a proteção de patente em 2028, abrindo espaço para a concorrência de biossimilares de empresas como Amgen e Samsung Bioepis.
O desafio é claro: a Merck ainda não tem um sucessor definido capaz de preencher uma possível lacuna de receita de vários bilhões de dólares.
2️⃣ Por que a Merck escolheu a separação estrutural
A Merck agora operará duas unidades farmacêuticas distintas:
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Oncologia (centrada no Keytruda)
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Especialidades, vacinas e doenças infecciosas
O objetivo é aumentar a flexibilidade estratégica — permitindo alocação de capital mais focada, avaliação de ativos mais clara e possíveis reestruturações ou desinvestimentos futuros.
Analistas veem essa movimentação como preparação para a era pós‑Keytruda, e não como uma iniciativa de crescimento imediato.
3️⃣ Os M&A não resolveram o problema de sucessão
Nos últimos cinco anos, a Merck investiu pesadamente para construir novos motores de crescimento:
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Acceleron (11,5 bilhões de dólares) → Sotatercept (terapia de HPAP)
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Prometheus Biosciences (10,8 bilhões de dólares) → pipeline de anticorpo TL1A
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Verona Pharma (cerca de 10 bilhões de dólares) → medicamento para DPOC Ohtuvayre
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Aprovado em 2024
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Vendas máximas projetadas em 3–4 bilhões de dólares
Apesar dos avanços, nenhum desses ativos chega perto da escala do Keytruda.
Estratégias de gestão de ciclo de vida — formulações subcutâneas e terapias em combinação — só conseguem adiar o problema.
4️⃣ Esta não é apenas uma história da Merck — é uma transição de setor
Entre 2025 e 2028, a expiração de patentes está forçando movimentos semelhantes em toda a Big Pharma:
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Takeda reestruturando antes da expiração da patente do Trintellix (2026)
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Novartis enfrentando a perda da patente do Entresto (2025)
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Bristol Myers Squibb lidando com múltiplas expirações, incluindo Eliquis e Opdivo
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Xarelto da Bayer (2025) e Ibrance da Pfizer (2027) se aproximando do fim da exclusividade
Demissões, reorganizações e mudança de foco do pipeline estão se tornando respostas comuns.
5️⃣ As três estratégias de sobrevivência da Big Pharma
Defesa de patentes: a AbbVie prolongou a vida do Humira por meio de uma ampla proteção de propriedade intelectual.
Especialização terapêutica: as corridas em oncologia, imunologia, vacinas e doenças metabólicas se intensificam.
Renovação baseada em aquisições: Grandes M&A continuam a ser a estratégia mais rápida para substituir receitas.
O cenário mais amplo
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O fenômeno do patent cliff é cíclico e previsível, mas poucos aproveitam estrategicamente. As empresas que antecipam essas quedas deveriam estar construindo hoje os biossimilares e genéricos de amanhã, não apenas investindo em blockbusters. Além disso, há uma janela de oportunidade enorme para parcerias entre big pharma e biotechs emergentes. O futuro não é sobre proteger patentes, mas sobre agilidade para inovar continuamente. Quem entender isso primeiro vai dominar a próxima década.
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