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O Brasil Processa 37% da Cana-de-Açúcar do Mundo — e Isso Está Dentro dos Seus Medicamentos | Top 50 Países Maiores Produtores

O Brasil Processa 37% da Cana-de-Açúcar do Mundo — e Isso Está Dentro dos Seus Medicamentos | Top 50 Países Maiores Produtores
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Série: Consultores, Propagandistas e Representantes


A cana-de-açúcar é a cultura agrícola de maior volume de produção do planeta em termos de tonelagem bruta. O Brasil processa 635 milhões de toneladas anuais, e segundo a lista TOP 50 Maiores Países Produtores Mundiais, representa 37% do total mundial, em uma cadeia agroindustrial que se estende por mais de dez estados e que envolve centenas de usinas, milhões de trabalhadores e um complexo de produtos que vai muito além do açúcar refinado e do etanol combustível que dominam a percepção pública sobre o setor. Para a Indústria Farmacêutica, a cana brasileira é uma fonte de excipientes, de solventes, de substratos de fermentação e de compostos funcionais que aparecem em formulações de medicamentos com uma frequência que a maioria dos profissionais do setor ainda não mapeou adequadamente, e que tem implicações estratégicas para a cadeia de abastecimento farmacêutico nacional e global que merecem atenção muito maior do que recebem nos fóruns especializados do setor.


Top 50 Países Maiores Produtores

Nenhum outro país combina, da forma como o Brasil combina, escala de processamento de cana-de-açúcar com infraestrutura industrial desenvolvida para conversão dessa matéria-prima em derivados de múltiplas cadeias produtivas simultaneamente. A mesma usina que produz açúcar cristal para exportação produz etanol anidro para combustível, etanol hidratado para bebidas e para uso industrial, melaço para fermentação de antibióticos, levedura seca para nutrição animal e humana, bagaço para geração de energia elétrica e vinhaça para fertirrigação. Essa versatilidade industrial da cadeia sucroenergética brasileira é o que cria múltiplas conexões com a farmacêutica a partir de um único insumo agrícola processado em escala continental.


Desafiar qualquer diretor de operações de uma Indústria Farmacêutica brasileira a mapear com precisão quantos dos insumos que sua planta utiliza têm origem direta ou indireta na cana-de-açúcar nacional é um exercício que invariavelmente produz surpresas. O etanol farmacêutico usado como solvente de extração e como excipiente em tinturas e em preparações líquidas. O sorbitol usado como adoçante técnico em xaropes pediátricos e como umectante em géis. O manitol usado como diluente em comprimidos liofilizados e como osmótico em preparações injetáveis. A sacarose usada como excipiente em comprimidos e como substrato de fermentação em processos biotecnológicos. Todos esses insumos têm na cana brasileira uma origem primária que raramente é rastreada além do fornecedor imediato mas que existe e é estrategicamente relevante.


A produção brasileira de cana-de-açúcar atingiu 635 milhões de toneladas na safra 2024/25, com as regiões de São Paulo, Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul concentrando aproximadamente 90% do total nacional. O Brasil é simultaneamente o maior produtor mundial de açúcar e o maior exportador global, respondendo por cerca de 50% do açúcar comercializado no mercado internacional. Essa posição de liderança absoluta no mercado de açúcar tem implicação direta para a cadeia farmacêutica porque o açúcar de grau farmacêutico, a sacarose purificada com especificação para uso em formulações orais, injetáveis e de uso tópico, tem na produção brasileira sua principal fonte de matéria-prima para o mercado global de excipientes. 

Fonte: https://www.fao.org/statistics/highlights-archive/highlights-detail/agricultural-production-statistics-2010-2024/en


Nesse contexto de dominância produtiva, o etanol de cana merece análise técnica aprofundada por sua relevância farmacêutica que vai muito além do combustível que movimenta a frota flex brasileira. O etanol de grau farmacêutico, produzido por fermentação alcoólica do caldo de cana seguida de destilação e de purificação para remoção de impurezas e de álcoois superiores, é reconhecido pela USP, pela Farmacopeia Europeia e pela Farmacopeia Brasileira como excipiente de uso aprovado em preparações farmacêuticas líquidas, como solvente de extração de princípios ativos vegetais em processos de obtenção de tinturas e de extratos fluidos, como agente de preservação antimicrobiana em preparações tópicas e como componente de soluções antissépticas de uso hospitalar. O Brasil, com sua infraestrutura de produção de etanol de cana que é a mais desenvolvida do mundo, tem condições únicas de ser o maior fornecedor global de etanol de grau farmacêutico a custo competitivo e com perfil de sustentabilidade superior ao etanol de origem petroquímica ou de milho americano.


Dados do mercado brasileiro de etanol confirmam que uma fração crescente da produção nacional é destinada ao uso industrial e farmacêutico, com especificações técnicas mais rigorosas do que o etanol combustível e com margens de valor agregado significativamente superiores. Usinas paulistas e goianas que investiram em colunas de purificação e em processos de desidratação avançada produzem etanol de alta pureza com teor alcoólico superior a 99,5% e com limites de impurezas conformes com as especificações farmacopeiais, abrindo um mercado de exportação de etanol farmacêutico que o Brasil ainda não explorou com a agressividade que sua capacidade produtiva permitiria. 

Fonte: https://www.agbull.com/ag-production-eight-countries-hold-every-crown/


Reposicionando a análise para o sorbitol, derivado da glicose obtida por hidrólise da sacarose de cana, emerge uma dimensão de excipiente farmacêutico de uso disseminado que raramente é associada à cana brasileira pelos profissionais do setor. O sorbitol é reconhecido pelas principais farmacopeias internacionais como excipiente de uso farmacêutico aprovado em múltiplas funções: adoçante em xaropes pediátricos, umectante em géis e em preparações semissólidas, diluente e ligante em comprimidos e em cápsulas, agente osmótico em preparações laxativas e agente estabilizante em proteínas biofarmacêuticas. O Brasil, como maior produtor mundial de açúcar do qual a glicose e o sorbitol são derivados, tem capacidade estrutural de ser um dos maiores fornecedores mundiais desse excipiente, posição que ainda está sendo desenvolvida mas que tem crescido progressivamente à medida que a indústria química brasileira investe em processos de hidrogenação da glicose para produção de sorbitol de grau farmacêutico.


Uma dimensão adicional que conecta a cana brasileira à farmacêutica é o papel do melaço, subproduto do processo de cristalização do açúcar, como substrato de fermentação industrial para produção de antibióticos, de vitaminas e de outros metabólitos de interesse farmacêutico. O melaço de cana é rico em açúcares fermentáveis, em vitaminas do complexo B, em minerais e em compostos nitrogenados que o tornam um substrato nutritivo ideal para fermentações industriais com fungos e bactérias produtores de penicilina, de cefalosporinas, de vitamina B12, de ácido cítrico e de outros produtos de biotecnologia industrial. Países como a Índia e a China utilizam melaço de cana como substrato de fermentação em suas indústrias de APIs, e o Brasil, com sua imensa disponibilidade de melaço de alta qualidade, tem potencial inexplorado de desenvolver uma indústria de fermentação industrial de maior escala utilizando esse subproduto abundante e de custo relativamente baixo.


Incluindo o manitol nessa análise, esse álcool de açúcar derivado da manose, produzido industrialmente por hidrogenação da frutose obtida da sacarose de cana, tem aplicações farmacêuticas críticas que incluem seu uso como diluente de excelência em comprimidos de dissolução oral rápida, como agente osmótico em preparações injetáveis para redução de pressão intracraniana em emergências neurológicas e como excipiente de escolha em formulações liofilizadas de biológicos e de vacinas onde sua capacidade de formar matrizes amorfas estáveis durante o processo de liofilização protege as moléculas proteicas do estresse térmico e mecânico do processo. A cadeia de produção de manitol de grau farmacêutico a partir de açúcar de cana é uma oportunidade de verticalização que a indústria química brasileira ainda não explorou completamente mas que tem atratividade econômica crescente à medida que o mercado de biológicos e de vacinas liofilizadas expande globalmente.


Integrando a perspectiva biotecnológica, a cana-de-açúcar brasileira está no centro de uma convergência entre a agroindústria tradicional e a biotecnologia moderna que tem implicações diretas para a produção de APIs de nova geração. Processos de biorrefinaria que utilizam bagaço de cana como matéria-prima para produção de etanol celulósico de segunda geração e de outros produtos químicos por fermentação estão sendo desenvolvidos por empresas brasileiras com apoio de investimentos públicos e privados. Esses processos abrem a possibilidade de produzir, a partir de resíduos da cadeia sucroenergética, precursores de síntese orgânica que hoje são derivados de petróleo, criando uma cadeia de química verde com origem na cana brasileira que pode alimentar a produção de APIs com perfil de sustentabilidade superior e com menor dependência de petroquímicos.


Zelar pela qualidade do etanol farmacêutico e dos demais derivados de cana para uso em formulações farmacêuticas exige que fabricantes e fornecedores brasileiros invistam na certificação de suas plantas processadoras segundo normas GMP reconhecidas internacionalmente, na validação de métodos analíticos para verificação de conformidade com especificações farmacopeiais e no desenvolvimento de documentação técnica que suporte a inclusão desses excipientes em dossiês de registro regulatório perante a Anvisa, a FDA e a EMA. Esse investimento em qualificação é o que transforma a vantagem estrutural de maior produtor mundial de cana em vantagem competitiva concreta no mercado global de excipientes farmacêuticos.


Revisando os contratos anuais de fornecimento de excipientes para uma planta farmacêutica brasileira de médio porte, encontra uma situação paradoxal que resume o subaproveitamento da cana nacional pela Indústria Farmacêutica doméstica. O etanol farmacêutico que sua planta utiliza é importado da Europa porque os fornecedores nacionais ainda não possuem certificação GMP equivalente. O sorbitol de grau farmacêutico vem da China porque os produtores brasileiros de sorbitol não investiram na purificação adicional exigida para uso farmacêutico. E o manitol é importado dos Estados Unidos porque a produção nacional ainda não existe em escala industrial. Esse cenário de importação de derivados de um produto que o Brasil produz em maior volume do que qualquer outro país do mundo é um paradoxo estratégico que a indústria química e farmacêutica nacional tem a responsabilidade e a oportunidade de reverter com investimentos direcionados e com políticas de desenvolvimento industrial adequadas.


A dimensão energética da cana brasileira tem uma conexão farmacêutica indireta mas real que merece menção específica. O bagaço de cana, subproduto da moagem nas usinas, é utilizado para geração de energia elétrica por meio de caldeiras de alta pressão, tornando a maior parte das usinas brasileiras energeticamente autossuficientes e frequentemente exportadoras de eletricidade para a rede nacional. Essa autossuficiência energética reduz o custo operacional das usinas, aumenta a competitividade do etanol e do açúcar brasileiros no mercado global e, por extensão, mantém os preços dos derivados de cana com relevância farmacêutica em níveis competitivos em relação a alternativas de outras origens. Para laboratórios farmacêuticos brasileiros que compram etanol, sorbitol e sacarose de fornecedores nacionais, essa competitividade energética da cadeia sucroenergética é um benefício indireto mas mensurável.


Uma análise de tendências de longo prazo para a cana-de-açúcar brasileira e suas conexões farmacêuticas aponta para um cenário de crescimento da relevância desse insumo na cadeia de saúde global impulsionado por três vetores simultâneos. O primeiro é a crescente demanda por excipientes de origem renovável que substituam derivados petroquímicos em formulações farmacêuticas sujeitas a pressão regulatória e de mercado por ingredientes mais sustentáveis. O segundo é a expansão da biotecnologia industrial que utiliza substratos de fermentação de origem vegetal para produção de APIs e de intermediários de síntese que hoje dependem da síntese química convencional. O terceiro é o crescimento do mercado brasileiro de medicamentos que aumenta a demanda doméstica por excipientes de qualidade farmacêutica produzidos localmente com custo e rastreabilidade vantajosos em relação às alternativas importadas.


Estratégias de desenvolvimento da cadeia de excipientes farmacêuticos derivados de cana no Brasil exigem a convergência de investimentos privados em qualificação de plantas de processamento, de políticas públicas de incentivo à certificação GMP de produtores de excipientes nacionais, de parcerias entre usinas sucroenergéticas e laboratórios farmacêuticos que criem demanda previsível para excipientes de grau farmacêutico e de programas de pesquisa e desenvolvimento que explorem o potencial biotecnológico da cadeia sucroenergética para produção de novos insumos de interesse para a indústria de saúde. Esse conjunto de ações, coordenado por organismos como a Abimapi, a Abiquif e a Abifina, tem o potencial de transformar o Brasil de importador de excipientes derivados dos seus próprios produtos agrícolas em exportador de ingredientes farmacêuticos de alto valor agregado com origem rastreável na maior cadeia sucroenergética do mundo.


A cana que o Brasil planta, colhe e processa em volumes que nenhum outro país sequer se aproxima de replicar está produzindo, além do açúcar e do etanol que o mundo conhece, uma cadeia de excipientes, de substratos de fermentação e de plataformas biotecnológicas que a farmácia do futuro vai precisar em volumes crescentes. Reconhecer essa potencialidade, investir na qualificação farmacêutica da cadeia sucroenergética brasileira e posicionar o Brasil como fornecedor estratégico de excipientes de origem renovável para a Indústria Farmacêutica global é uma decisão que combina vantagem competitiva estrutural com responsabilidade ambiental verificável e com desenvolvimento industrial que agrega valor real à maior riqueza agrícola que o país tem a oferecer ao mundo.

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