Existe um grupo de dezessete elementos químicos que a maioria das pessoas nunca ouviu nomear individualmente mas que estão presentes em praticamente todos os equipamentos de saúde de alta tecnologia que fazem parte do cotidiano da medicina moderna: Lantânio, cério, praseodímio, neodímio, samário, európio, gadolínio, térbio, disprósio, hólmio, érbio, túlio, itérbio, lutécio, escândio e ítrio formam o grupo conhecido como terras raras, e a China produz 270 mil toneladas anuais desses elementos, as quais segundo a lista TOP 50 Maiores Países Produtores Mundiais, representam 69% de todo o volume extraído no planeta, com reservas que correspondem a 37% do total mundial. Para a medicina de diagnóstico e de tratamento, essa concentração em um único país de um conjunto de elementos que não têm substitutos equivalentes em múltiplas aplicações críticas de saúde cria uma dependência estrutural que merece atenção estratégica muito mais profunda do que a que o setor farmacêutico e de equipamentos médicos habitualmente dedica a essa questão.
Nenhum outro grupo de elementos tem presença tão simultânea e tão indispensável em tantas tecnologias médicas distintas quanto as terras raras. O gadolínio está nos agentes de contraste para ressonância magnética que são administrados a dezenas de milhões de pacientes por ano. O európio e o térbio estão nos detectores de raios X digitais que equipam salas de radiologia em todo o mundo. O neodímio está nos imãs permanentes dos motores que movem os robôs cirúrgicos e nos geradores de campos magnéticos de aparelhos de ressonância magnética. O hólmio está em lasers cirúrgicos usados em urologia e em oftalmologia. O lutécio está nos radiofármacos terapêuticos de nova geração que tratam cânceres com precisão molecular. A China, com seu domínio de 69% da produção global, está em cada uma dessas tecnologias de forma que nenhuma estratégia de diversificação de curto prazo consegue eliminar completamente.
Desafiar qualquer diretor de tecnologia médica de um hospital de grande porte ou qualquer gestor de supply chain de uma empresa de equipamentos médicos a quantificar sua dependência de terras raras chinesas é um exercício que invariavelmente revela um nível de exposição que ultrapassa o que qualquer análise de risco convencional captura. A maioria das organizações de saúde sabe que depende de ressonância magnética, de tomógrafos computadorizados e de sistemas de radioterapia guiada por imagem. Poucas sabem que todos esses equipamentos dependem de terras raras chinesas de formas que não têm alternativas de substituição disponíveis no curto prazo. E quase nenhuma tem plano de contingência para o cenário em que a China decida restringir as exportações desses elementos com a mesma determinação com que restringiu o níquel indonésio e o lítio boliviano em momentos de interesse estratégico nacional.
A produção chinesa de terras raras atingiu 270 mil toneladas em 2024, consolidando uma posição de liderança que o país construiu ao longo de décadas de investimento deliberado em capacidade de extração e de processamento que deslocou praticamente todos os produtores alternativos do mercado global. Os depósitos de Mountain Pass nos Estados Unidos, de Mount Weld na Austrália e de Bayan Obo na Mongólia Interior chinesa são os mais significativos do mundo, mas enquanto os americanos e australianos reduziram drasticamente sua produção nas décadas de 1990 e 2000 por pressão de custos e de regulações ambientais, a China expandiu agressivamente sua capacidade extrativa e de processamento, chegando a produzir mais de 90% do total mundial antes de uma reorganização do setor nos anos 2010 que reduziu ligeiramente sua participação para os atuais 69%.
Fonte: https://ourworldindata.org/countries-critical-minerals-needed-energy-transition
Nesse contexto de dominância histórica e estrutural, o gadolínio merece análise técnica aprofundada por sua posição única como elemento crítico para um dos procedimentos diagnósticos mais realizados em todo o mundo. Os quelatos de gadolínio, incluindo o gadopentetato de dimeglumina, o gadoteridol, o gadobutrol e outros agentes paramagnéticos aprovados pelas agências regulatórias internacionais, são administrados por via intravenosa em aproximadamente 30% a 40% de todas as ressonâncias magnéticas realizadas globalmente para melhorar a diferenciação de tecidos e a detecção de lesões que não seriam visíveis sem o agente de contraste. O gadolínio, como elemento paramagnético que altera o tempo de relaxação de prótons adjacentes, é o único elemento com as propriedades magnéticas adequadas para essa aplicação em concentrações seguras para uso humano, e nenhum substituto com eficácia e segurança equivalentes está disponível ou em fase avançada de desenvolvimento. A China, como maior produtora mundial de gadolínio, é a origem primária de praticamente todo o agente de contraste para ressonância magnética consumido globalmente.
Dados do mercado global de agentes de contraste confirmam que o gadolínio farmacêutico é um dos segmentos de maior valor da cadeia de terras raras, com preço unitário muito superior ao dos óxidos de terras raras industriais e com barreiras de entrada regulatórias que limitam o número de fornecedores qualificados. A purificação do gadolínio para grau farmacêutico, seguida da síntese e da purificação dos quelatos que garantem sua segurança e sua estabilidade em aplicação clínica, é um processo de alta complexidade técnica que requer investimento significativo em equipamentos e em expertise analítica. Esse processo é dominado por um pequeno número de empresas farmacêuticas especializadas em agentes de contraste, localizadas principalmente na Europa e nos Estados Unidos, mas que dependem de óxido de gadolínio de grau de pureza elevada originário predominantemente de processadores chineses.
Fonte: https://www.visualcapitalist.com/the-worlds-mineral-production-by-country/
Reposicionando a análise para os imãs de neodímio-ferro-boro, a conexão entre as terras raras chinesas e a medicina de alta tecnologia assume uma dimensão ainda mais estrutural e de mais difícil substituição. Os imãs permanentes de neodímio-ferro-boro são os mais poderosos disponíveis comercialmente e são componentes essenciais dos sistemas de geração de campo magnético de aparelhos de ressonância magnética de alto campo, dos motores que movem os sistemas robóticos de cirurgia assistida como o Da Vinci, dos atuadores de próteses eletrônicas avançadas e dos sistemas de direcionamento de feixes em equipamentos de radioterapia de precisão como o CyberKnife e o sistema de tomoterapia. A China produz aproximadamente 90% de todos os imãs de neodímio do mundo, dominando tanto a extração do neodímio quanto o processamento e a fabricação dos imãs acabados que chegam aos fabricantes de equipamentos médicos em todo o mundo.
Uma dimensão adicional que conecta as terras raras chinesas à medicina nuclear é o lutécio, elemento que apareceu anteriormente nesta série no contexto do urânio cazaque como precursor de radiofármacos terapêuticos. O lutécio-177, radioisótopo produzido por irradiação de lutécio estável em reatores nucleares, é o componente radioativo dos radiofármacos terapêuticos aprovados para tratamento de tumores neuroendócrinos e de câncer de próstata metastático, como o lutetium-177 DOTATATE e o lutetium-177 PSMA. O lutécio estável utilizado como alvo de irraviação para produção do lutécio-177 tem na China sua principal fonte global de produção e de refino, criando uma dependência da oncologia de precisão moderna em relação às terras raras chinesas que vai muito além dos equipamentos de diagnóstico por imagem.
Integrando a perspectiva geopolítica, a China já demonstrou disposição e capacidade de utilizar seu domínio de terras raras como instrumento de política externa. Em 2010, a China reduziu drasticamente suas cotas de exportação de terras raras, gerando escassez global e aumento de preços que afetou toda a cadeia de tecnologia avançada, incluindo fabricantes de equipamentos médicos. Embora a OMC tenha declarado ilegais as restrições chinesas em 2014, o episódio demonstrou a vulnerabilidade da cadeia global de alta tecnologia a decisões unilaterais de Pequim e motivou investimentos em capacidade de produção alternativa nos Estados Unidos, na Austrália e na Europa que ainda estão em desenvolvimento e que não conseguirão substituir completamente a oferta chinesa antes de 2030 nos cenários mais otimistas.
Zelar pela segurança de abastecimento de terras raras para a cadeia de saúde exige estratégias que vão além da diversificação de fornecedores, porque a diversificação real está estruturalmente limitada pela concentração das reservas e pela defasagem de décadas que existe entre a tomada de decisão de investir em nova capacidade produtiva e o início da produção comercial de uma mina de terras raras. As estratégias viáveis incluem o desenvolvimento de programas de reciclagem de equipamentos médicos que recuperem terras raras de aparelhos descartados, o investimento em pesquisa de substitutos para aplicações específicas onde a substituição é tecnicamente possível sem perda inaceitável de performance clínica e a construção de estoques estratégicos de elementos críticos por parte de fabricantes de equipamentos médicos e de empresas farmacêuticas que utilizam gadolínio e lutécio em seus produtos.
Bernardo, gerenciando o planejamento de compras de uma empresa distribuidora de equipamentos médicos de diagnóstico por imagem no Brasil, enfrenta uma questão concreta que resume a vulnerabilidade desta análise. Os aparelhos de ressonância magnética que distribui contêm imãs de neodímio e sistemas que dependem de terras raras em múltiplos componentes, mas os contratos de manutenção e de fornecimento de peças de reposição com os fabricantes originais raramente incluem garantias específicas sobre a disponibilidade de componentes com terras raras em cenários de restrição de exportação chinesa. Construir cláusulas contratuais que enderecem esse risco específico, negociar estoques de peças críticas com os fabricantes e desenvolver relacionamentos com fornecedores alternativos de componentes que utilizem terras raras são ações concretas que reduzem a exposição sem eliminar completamente a dependência estrutural.
A indústria de equipamentos médicos global tem respondido ao risco das terras raras chinesas com uma combinação de investimentos em eficiência de uso, reduzindo a quantidade de terras raras por unidade de equipamento produzido, e de pesquisa em materiais alternativos que possam substituir elementos específicos em determinadas aplicações sem comprometimento de performance. Imãs de ferrita que substituem o neodímio em aplicações de campo magnético moderado, detectores de silício que reduzem a dependência de európio e térbio em alguns sistemas de imageamento e ligantes alternativos ao gadolínio que estão em desenvolvimento para agentes de contraste de ressonância magnética são exemplos de iniciativas de redução de dependência que mostram progresso mas que ainda estão distantes de uma substituição completa nas aplicações mais críticas.
Uma análise prospectiva da posição chinesa no mercado de terras raras precisa considerar que o país está ativamente movendo sua estratégia de simples exportador de óxidos de terras raras para produtor de componentes e de produtos acabados de maior valor agregado. Imãs de neodímio fabricados na China que chegam diretamente aos fabricantes de equipamentos médicos no lugar de óxidos que eram processados em outros países, quelatos de gadolínio farmacêutico produzidos em plantas chinesas que competem com fornecedores europeus estabelecidos e compostos de lutécio de alta pureza para uso em medicina nuclear que reduzem a dependência de processadores americanos e europeus são movimentos que estão em curso e que vão progressivamente alterar a estrutura de valor da cadeia de terras raras para a Indústria Farmacêutica global.
A China que extrai 69% das terras raras do mundo de suas minas em Inner Mongolia, em Jiangxi e em Sichuan está, com cada tonelada de óxido de neodímio, de gadolínio e de lutécio que processa e exporta, sustentando a infraestrutura tecnológica da medicina moderna de uma forma que a maioria dos pacientes que entra em um aparelho de ressonância magnética, que recebe um agente de contraste ou que é tratado com lutécio-177 nunca vai saber. Tornar essa dependência visível, mensurável e gerenciável é o imperativo estratégico que a Indústria Farmacêutica e global precisa endereçar com urgência crescente, porque o custo de ignorá-la, em termos de vulnerabilidade de abastecimento de tecnologias médicas que salvam vidas, é muito mais alto do que o custo de construir as estratégias de resiliência que esse risco exige.
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