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A Venezuela Tem as Maiores Reservas de Petróleo do Mundo — e Quase Não Consegue Extraí-las | Top 50 Países Maiores Produtores

A Venezuela Tem as Maiores Reservas de Petróleo do Mundo — e Quase Não Consegue Extraí-las | Top 50 Países Maiores Produtores
#BrazilSFE #Venezuela #Petroleo #Reservas #Petroquimica #Farmaceutica #SupplyChain #Geopolitica #Risco #OPEP #Crise



Série: Consultores, Propagandistas e Representantes


A maior reserva provada de petróleo do planeta não está no Oriente Médio. Está na América do Sul, em um país que já foi o maior exportador de petróleo do hemisfério ocidental e que hoje produz menos de um décimo do que produzia no auge da sua capacidade. A Venezuela detém 17,5% de todas as reservas provadas de petróleo do mundo, volume superior ao da Arábia Saudita em termos de reservas totais catalogadas, mas, segundo a lista TOP 50 Maiores Países Produtores Mundiais, produz apenas 0,7 milhão de barris por dia, representando menos de 1% do total mundial. Esse paradoxo entre riqueza geológica extraordinária e colapso produtivo sem precedentes é uma das histórias mais instrutivas que o mapa global de commodities tem a oferecer para profissionais que precisam compreender como recursos naturais podem ser desperdiçados por má gestão, instabilidade política e desinvestimento crônico.


Venezuela — com uma presença no ranking:


  • Petróleo (reservas) (#48 — 0,7 M bpd — 0,7% mundial — reservas: 17,5%)


Nenhum outro caso na história moderna do petróleo combina, da forma como a Venezuela combina, reservas geológicas de magnitude histórica com deterioração produtiva tão dramática e tão rápida. Em 1998, o país produzia 3,5 milhões de barris por dia. Em 2024, produzia 0,7 milhão, redução de 80% em menos de três décadas. Essa trajetória de declínio não foi causada pelo esgotamento das reservas, que permanecem intactas sob o subsolo do estado de Bolívar e da faixa do Orinoco. Foi causada pela combinação de desinvestimento em manutenção e em tecnologia, pela fuga de capital humano especializado, pela nationalização desordenada de ativos de empresas internacionais e pela instabilidade macroeconômica que destruiu a capacidade do país de importar os equipamentos e os insumos necessários para manter e expandir a produção.


Top 50 Países Maiores Produtores

Desafiar qualquer profissional de supply chain farmacêutico a extrair lições estratégicas do caso venezuelano para a gestão das suas próprias cadeias de abastecimento é um exercício que produz insights valiosos independentemente do setor específico de atuação. O que aconteceu com o petróleo venezuelano, a erosão gradual de uma liderança produtiva aparentemente sólida por força de fatores não geológicos mas institucionais, políticos e de gestão, pode acontecer com qualquer commodity crítica em qualquer país produtor. A pergunta que os gestores de supply chain farmacêutico deveriam estar fazendo não é apenas onde está a reserva, mas quão resiliente é a instituição que a administra.


A Venezuela possui reservas provadas de petróleo estimadas em 303 bilhões de barris, valor que supera as reservas sauditas de aproximadamente 267 bilhões de barris e que representa 17,5% do total mundial. A maior parte dessas reservas está localizada na faixa do Orinoco, no norte do país, na forma de petróleo extrapesado com alta densidade e alto teor de enxofre que requer processamento especial e diluentes para ser transportado e refinado. Essa característica técnica do petróleo venezuelano, que o torna mais caro e mais complexo de processar do que o petróleo leve árabe ou o petróleo de xisto americano, é um fator adicional que complica sua exploração e que exige tecnologia e capital que o país não tem conseguido mobilizar nas circunstâncias atuais. 


Fonte: https://worldpopulationreview.com/country-rankings/oil-producing-countries


Nesse contexto de colapso produtivo sobre uma base de reservas extraordinária, a conexão com a Indústria Farmacêutica venezuelana é um capítulo à parte que ilustra com brutal clareza as consequências humanas da deterioração de uma cadeia de abastecimento de insumos energéticos e petroquímicos. A Venezuela já teve uma Indústria Farmacêutica doméstica relativamente desenvolvida para os padrões latino-americanos, com laboratórios nacionais, capacidade de produção de medicamentos genéricos e um sistema público de distribuição que, embora imperfeito, funcionava dentro de padrões mínimos de acesso. O colapso econômico que acompanhou a queda da produção de petróleo destruiu essa capacidade: laboratórios fecharam por falta de matérias-primas importadas, medicamentos essenciais desapareceram das farmácias e hospitais, e o país passou a depender quase completamente de importações e de doações internacionais para atender às necessidades básicas de saúde da população.


Dados de organizações internacionais de saúde documentam que a Venezuela enfrentou nas últimas décadas escassez severa de medicamentos essenciais, incluindo antibióticos, insulina, antirretrovirais e medicamentos para doenças cardiovasculares, com taxas de escassez que chegaram a 80% do portfólio de medicamentos essenciais em determinados períodos. Essa crise farmacêutica não foi causada pela falta de petróleo no subsolo venezuelano. Foi causada pela incapacidade do Estado de converter sua riqueza geológica em receita exportável suficiente para financiar as importações de matérias-primas e de medicamentos que a população necessitava. Esse mecanismo de transmissão entre colapso de produção energética e crise farmacêutica é um dos mais documentados e mais dramáticos da história recente. 

Fonte: https://www.arescotx.com/top-oil-producing-countries-2024/


Reposicionando a análise para as lições de gestão de supply chain que o caso venezuelano oferece, emerge um conjunto de aprendizados que transcende o setor de petróleo e tem aplicação direta para qualquer cadeia de abastecimento de insumos críticos. A primeira lição é que reservas geológicas não são garantia de fornecimento. O que garante o fornecimento é a capacidade institucional, técnica e financeira de converter o recurso em produto disponível no mercado com consistência e previsibilidade. A segunda lição é que a deterioração produtiva pode ser muito mais rápida do que qualquer modelo de risco convencional prevê quando fatores institucionais se combinam com desinvestimento técnico e instabilidade macroeconômica. A terceira lição é que as consequências da ruptura de cadeia chegam, invariavelmente, ao paciente final muito antes de chegarem ao balanço das empresas que compõem essa cadeia.


Uma perspectiva adicional que o caso venezuelano oferece é a demonstração de como a dependência de uma única commodity, por mais valiosa que seja, pode tornar toda a economia de um país, e consequentemente toda a sua cadeia de saúde, extremamente vulnerável às flutuações de preço e de demanda desse único produto. A Venezuela construiu seu modelo econômico sobre o petróleo com uma dependência tão profunda que, quando os preços caíram e a produção colapsou, não havia diversificação produtiva suficiente para absorver o choque. Essa lição de diversificação produtiva tem eco direto nas estratégias de supply chain farmacêutico: cadeias de abastecimento que dependem de um único insumo, de um único fornecedor ou de um único país para qualquer componente crítico são estruturalmente frágeis independentemente da aparente solidez atual desse fornecimento.


Integrando essa análise ao contexto das relações do Brasil com a Venezuela, a proximidade geográfica e as relações históricas entre os dois países criam uma dimensão adicional relevante. O Brasil é um dos maiores doadores de medicamentos e de assistência humanitária para a Venezuela nos últimos anos, por meio de programas do Ministério da Saúde e de organizações não governamentais. Essa relação de assistência humanitária, construída sobre a crise farmacêutica venezuelana, é ao mesmo tempo um ato de solidariedade regional e um lembrete de como a deterioração de um sistema de saúde pode ocorrer rapidamente quando as condições estruturais que o sustentam colapsam. Para gestores de supply chain farmacêutico brasileiro, a Venezuela é um caso de estudo vivo de consequências de ruptura de cadeia que está literalmente na fronteira do país.


Zelar pela sustentabilidade das cadeias de abastecimento farmacêutico exige, portanto, uma avaliação que vai muito além da análise de preço e de disponibilidade imediata de insumos. Inclui a avaliação da estabilidade institucional dos países fornecedores, da diversificação das suas economias, da capacidade dos seus sistemas de saúde de manter operações mínimas em situações de crise e da vulnerabilidade das suas cadeias produtivas a choques externos de preço ou de demanda. O Venezuela representa o cenário extremo de todos esses fatores de risco convergindo simultaneamente, mas versões menos dramáticas dos mesmos riscos existem em múltiplos outros países fornecedores de insumos farmacêuticos ao redor do mundo.


Bernardo, responsável por construir o mapa de riscos de supply chain de uma empresa farmacêutica multinacional com operações na América Latina, inclui a Venezuela em suas análises não como fornecedor atual de insumos, porque o país praticamente não exporta mais nada, mas como caso de estudo de deterioração institucional e produtiva cujos padrões de alerta podem ser identificados em outros países fornecedores com décadas de antecedência, se os analistas souberem o que procurar. Dependência excessiva de uma única commodity, desinvestimento em manutenção de infraestrutura produtiva, fuga de capital humano qualificado, instabilidade regulatória crescente e isolamento do mercado de capitais internacional são os indicadores que, combinados, predizem trajetórias de deterioração como a venezuelana antes que elas se tornem crises agudas.


A recuperação produtiva da Venezuela, que alguns analistas projetam como possível num horizonte de médio prazo caso as condições políticas e de investimento melhorem, representa uma oportunidade de retorno ao mercado de petróleo de um ator com reservas que poderiam mudar significativamente o equilíbrio de oferta global. Mas essa recuperação exigiria investimentos estimados em centenas de bilhões de dólares em infraestrutura, em tecnologia de extração de petróleo pesado e em reconstrução de capacidade humana que foi perdida com a emigração de décadas de engenheiros e de técnicos especializados. O caminho de volta, se e quando começar, será longo, custoso e incerto, e a Indústria Farmacêutica global provavelmente não dependerá de petróleo venezuelano como insumo relevante dentro de um horizonte de planejamento estratégico de cinco a dez anos.


Uma análise prospectiva da posição venezuelana no mapa de commodities globais precisa considerar que as reservas existem, são reais e serão eventualmente desenvolvidas quando as condições institucionais e de mercado o permitirem. A questão não é se o petróleo venezuelano voltará ao mercado, mas quando e sob quais condições. Para a indústria petroquímica global e, por extensão, para a cadeia farmacêutica que depende de seus produtos, o retorno da Venezuela como produtor relevante poderia, no longo prazo, aumentar a diversidade de oferta de petróleo convencional e reduzir a dependência em relação a produtores do Oriente Médio, contribuindo para maior estabilidade de preços e de abastecimento petroquímico global.


Estratégias de monitoramento de risco de supply chain para a Indústria Farmacêutica que opera na América Latina deveriam incluir indicadores de alerta precoce baseados no caso venezuelano aplicados a outros países da região que compartilham características estruturais de dependência de commodities e de fragilidade institucional. Esses indicadores incluem o índice de diversificação exportadora, o percentual de receita governamental derivado de uma única commodity, a trajetória de investimento em manutenção de infraestrutura produtiva, os indicadores de capital humano no setor produtivo chave e a evolução do acesso ao mercado internacional de capitais. Monitorar esses indicadores para países fornecedores de insumos farmacêuticos críticos é uma prática de inteligência de risco que transforma o caso venezuelano de tragédia passada em ferramenta de prevenção futura.


A Venezuela que tem as maiores reservas de petróleo do mundo e que não consegue extraí-las em volume suficiente para financiar os medicamentos da sua própria população é o retrato mais dramático disponível das consequências de uma gestão de recursos naturais que prioriza o controle político sobre a competência técnica e o investimento de longo prazo. Para a Indústria Farmacêutica global, essa história não é apenas um dado geopolítico distante. É um lembrete permanente de que a riqueza de recursos naturais, sem as instituições, a competência técnica e o ambiente regulatório que permitem sua conversão em valor econômico consistente, não garante abastecimento, não garante acesso a medicamentos e não garante saúde para a população que vive sobre esses recursos. Essa é a lição mais importante que o petróleo venezuelano tem a ensinar, e ela vale para cada commodity crítica e para cada país fornecedor que a Indústria Farmacêutica global depende para funcionar.

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A Arábia Saudita Detém 17% do Petróleo do Mundo — e Isso Define o Custo de Cada Medicamento | Top 50 Países Maiores Produtores

A Arábia Saudita Detém 17% do Petróleo do Mundo — e Isso Define o Custo de Cada Medicamento | Top 50 Países Maiores Produtores
#BrazilSFE #ArabiaSaudita #Petroleo #Petroquimica #Polimeros #Embalagens #Farmaceutica #SupplyChain #OPEP #Solventes #Excipientes



Série: Consultores, Propagandistas e Representantes


O preço do medicamento que um paciente compra na farmácia na segunda-feira de manhã foi parcialmente definido em uma reunião da OPEP realizada semanas antes em Viena ou em Riad. Essa afirmação pode parecer exagerada para quem não conhece a cadeia de causalidade que conecta as decisões de produção de petróleo da Arábia Saudita ao custo final dos medicamentos nos mercados globais. Mas é tecnicamente precisa e economicamente verificável. A Arábia Saudita, com 10,9 milhões de barris produzidos por dia, 10,5% do total mundial e 17% de todas as reservas provadas de petróleo do planeta, segundo a lista TOP 50 Maiores Países Produtores Mundiais, é o ator individual com maior capacidade de influenciar o preço global do petróleo, e o petróleo é a matéria-prima primária de uma cadeia petroquímica que alimenta a produção de embalagens, solventes, excipientes e equipamentos farmacêuticos em todo o mundo.


Arábia Saudita — produto:


  • Petróleo (#7 — 10,9 M bpd — 10,5% mundial — reservas: 17%)


Nenhuma outra nação combina, da forma como a Arábia Saudita combina, o maior volume de reservas provadas de petróleo convencional de baixo custo de extração do mundo com a posição de líder de fato da OPEP e com a capacidade de ajustar a produção com velocidade suficiente para mover os mercados globais em questão de semanas. Essa combinação de recursos geológicos, de poder institucional dentro da OPEP e de capacidade operacional flexível é o que coloca a Arábia Saudita em uma posição de influência sobre o preço do petróleo que nenhum outro país, nem mesmo os Estados Unidos com sua produção maior em volume, consegue exercer com a mesma precisão e a mesma velocidade de transmissão ao mercado.


Top 50 Países Maiores Produtores

Desafiar os profissionais da Indústria Farmacêutica a quantificar com precisão o percentual do custo de produção dos seus medicamentos que é determinado, direta ou indiretamente, pelo preço do petróleo saudita é um exercício que raramente é realizado mas que produziria resultados surpreendentes para a maioria das organizações. Embalagens plásticas primárias e secundárias, solventes de síntese e de extração, lubrificantes de maquinário, bases para pomadas e cremes, plastificantes de filmes de revestimento, resinas para cápsulas de gelatina dura, combustível para transporte e para aquecimento de plantas industriais. A lista de insumos com origem direta ou indireta no petróleo saudita é mais longa do que qualquer gestor financeiro de laboratório farmacêutico costuma reconhecer nos seus modelos de custo.


A produção saudita de petróleo atingiu 10,9 milhões de barris por dia em 2024, mantendo o país na segunda posição global atrás dos Estados Unidos, que produzem cerca de 20 milhões de barris diários incluindo líquidos de gás natural. Mas a comparação em volume de produção subestima o poder saudita, porque os campos petrolíferos do país, especialmente o gigantesco campo de Ghawar, o maior do mundo em produção acumulada, têm custos de extração entre 2 e 4 dólares por barril, enquanto o petróleo de xisto americano custa entre 40 e 60 dólares por barril para ser extraído. Essa diferença de custo de produção é o que garante à Arábia Saudita e à Saudi Aramco, sua empresa estatal, margens operacionais que nenhum outro produtor consegue replicar e que conferem ao país uma flexibilidade estratégica única para aumentar ou reduzir a produção sem comprometer sua viabilidade financeira. 

Fonte: https://investingnews.com/daily/resource-investing/energy-investing/oil-and-gas-investing/top-oil-producing-countries/


Nesse contexto de poder estrutural sobre o mercado de petróleo, a cadeia petroquímica farmacêutica merece análise específica. O petróleo bruto saudita é refinado em nafta petroquímica, etileno, propileno e butadieno, moléculas básicas que alimentam a produção de polietileno, polipropileno, PVC, poliestireno e outros polímeros que chegam às embalagens farmacêuticas em todo o mundo. O polietileno de alta densidade usado em frascos de comprimidos, o polipropileno usado em seringas descartáveis, o PVC usado em bolsas de solução intravenosa e o poliestireno usado em bandejas de embalagem secundária têm todos, em proporções variáveis, uma conexão com a cadeia petroquímica que começa no petróleo do Golfo Pérsico.


Dados do mercado global de embalagens farmacêuticas confirmam que os polímeros plásticos representam entre 60% e 70% de todos os materiais de embalagem primária e secundária utilizados pela Indústria Farmacêutica mundial. Essa dependência estrutural de polímeros derivados de petróleo cria uma transmissão direta entre as variações do preço do petróleo bruto e o custo das embalagens farmacêuticas, com defasagem típica de três a seis meses entre a variação do preço do petróleo e seu reflexo nos contratos de fornecimento de embalagens. Uma decisão de corte de produção da OPEP liderada pela Arábia Saudita se traduz, com essa defasagem, em pressão de custo sobre o orçamento de embalagens de laboratórios farmacêuticos em todos os continentes. 

Fonte: https://www.visualcapitalist.com/the-worlds-mineral-production-by-country/


Reposicionando a análise para os solventes farmacêuticos, a conexão com o petróleo saudita é igualmente direta. O etanol industrial, o acetato de etila, o diclorometano, o hexano, o heptano e o isopropanol são solventes amplamente utilizados em síntese farmacêutica, em extração de princípios ativos de origem vegetal, em processos de recristalização e de purificação de APIs e em formulações farmacêuticas líquidas. A maioria desses solventes tem origem petroquímica e seus preços são influenciados pela cotação do petróleo bruto com mecanismos de transmissão bem documentados. A Arábia Saudita, como maior exportadora mundial de petróleo convencional e líder da OPEP, tem influência determinante sobre os preços de toda essa cadeia de solventes que chegam às plantas farmacêuticas globais.


Uma dimensão estratégica que vai além do custo imediato é o papel da Arábia Saudita no desenvolvimento de uma indústria petroquímica própria de maior valor agregado. A Saudi Aramco e a SABIC, sua subsidiária petroquímica, estão investindo bilhões de dólares em complexos industriais que integram a produção de petróleo bruto com o refino e o processamento petroquímico, produzindo não apenas combustíveis mas também polímeros, resinas e intermediários químicos que competem diretamente com fornecedores europeus e americanos nos mercados globais de matérias-primas para a Indústria Farmacêutica e de embalagens. Esse movimento de verticalização da cadeia petroquímica saudita vai progressivamente alterar o mapa de fornecedores de excipientes e de materiais de embalagem para laboratórios farmacêuticos em todo o mundo.


Integrando a perspectiva geopolítica, as decisões de produção da Arábia Saudita dentro da OPEP têm sido repetidamente utilizadas como instrumentos de política externa, criando episódios de volatilidade no preço do petróleo que tiveram impacto direto sobre os custos operacionais da Indústria Farmacêutica global. O embargo de 1973, a guerra de preços de 2014, os cortes coordenados durante a pandemia de COVID-19 em 2020 e as reduções de produção de 2022 e 2023 em resposta à invasão da Ucrânia pela Rússia são exemplos de decisões sauditas que se transmitiram, com velocidades e intensidades variáveis, ao custo de produção de medicamentos em países importadores de petróleo ao redor do mundo.


Zelar pela proteção do orçamento de produção farmacêutica contra a volatilidade do petróleo saudita exige ferramentas de gestão de risco que ainda são subutilizadas pela maioria das empresas do setor. Contratos de fornecimento de longo prazo com fornecedores de embalagens e de solventes que incluam cláusulas de indexação ao preço do petróleo, o uso de instrumentos financeiros de hedge sobre commodities energéticas, a avaliação de fornecedores alternativos de polímeros de origem biológica que reduzam a dependência do petróleo e o investimento em eficiência energética que reduza o consumo de combustíveis derivados de petróleo nas plantas industriais são estratégias que, combinadas, podem reduzir significativamente a exposição ao risco saudita sem eliminar completamente a dependência estrutural.


Preparando o orçamento anual de produção de uma Indústria Farmacêutica de médio porte e tentando projetar o custo de embalagens para os próximos doze meses, enfrenta uma incerteza fundamental que os modelos convencionais de orçamento raramente capturam adequadamente: qual será o preço do petróleo ao longo do período orçado, e como as decisões da Arábia Saudita dentro da OPEP vão influenciar essa variável? Incorporar cenários de preço de petróleo nos modelos de orçamento farmacêutico, com sensibilidades que mostrem o impacto de variações de 20%, de 30% e de 50% no preço do barril sobre o custo de embalagens e de solventes, é uma prática de gestão financeira que todo controller de Indústria Farmacêutica deveria adotar sistematicamente.


A Arábia Saudita está também em processo de transformação interna que tem implicações de longo prazo para o mercado de petróleo. O programa Vision 2030, iniciativa do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman para diversificar a economia saudita além do petróleo, inclui investimentos massivos em energia solar, em turismo, em entretenimento e em indústrias de alto valor agregado. Paradoxalmente, a diversificação econômica saudita não reduz necessariamente a produção de petróleo no curto prazo, porque o governo precisa de receitas petrolíferas para financiar a própria transformação econômica. Mas no longo prazo, à medida que a demanda global por petróleo se reduz com a transição energética, a Arábia Saudita pode ter incentivos crescentes para maximizar a extração enquanto o petróleo ainda tem valor de mercado expressivo, o que poderia manter ou aumentar a oferta e pressionar os preços para baixo em determinados cenários.


Numerosas iniciativas globais de descarbonização da Indústria Farmacêutica incluem metas de redução da dependência de insumos de origem fóssil em embalagens e em solventes. Polímeros bioplásticos derivados de cana-de-açúcar, amido e celulose estão ganhando participação crescente em embalagens farmacêuticas de menor criticidade técnica. Solventes de origem biológica como o bioetanol e o acetato de etila de origem vegetal estão sendo desenvolvidos e qualificados como alternativas a solventes petroquímicos em determinados processos de síntese e de extração. Essas iniciativas, embora ainda representem uma fração pequena do consumo total de insumos derivados de petróleo pela Indústria Farmacêutica, apontam para uma tendência de longo prazo de gradual redução da dependência em relação ao petróleo saudita que vai se intensificar à medida que as tecnologias de substituição amadurecem e os custos de produção de alternativas biológicas convergem para os de origem fóssil.


Estratégias de acesso a matérias-primas petroquímicas de qualidade farmacêutica para laboratórios que operam no Brasil precisam considerar que o país tem uma vantagem estrutural única nesse contexto de transição: a Petrobras e o complexo petroquímico brasileiro, especialmente a Braskem, oferecem alternativas domésticas para polietileno e polipropileno que reduzem a dependência de importação e a exposição ao preço do petróleo saudita para determinados insumos de embalagem. O polietileno verde da Braskem, produzido a partir do etanol de cana-de-açúcar, é um dos poucos polímeros de origem biológica disponíveis em escala industrial com propriedades equivalentes às do polietileno convencional e com certificação de origem renovável verificável, representando uma alternativa genuinamente interessante para laboratórios farmacêuticos brasileiros que buscam reduzir sua exposição ao risco petrolífero e comunicar credencialmente de sustentabilidade verificável para seus clientes e investidores.


O petróleo que a Arábia Saudita extrai dos campos do Golfo Pérsico e exporta para refinarias em todo o mundo chega, de formas que a maioria dos pacientes e de muitos profissionais de saúde nunca percebe, ao frasco plástico que contém os comprimidos, à seringa que administra o injetável, ao filme que embala o blíster e ao solvente que purificou o princípio ativo. Essa presença invisível do petróleo saudita na cadeia farmacêutica é uma das dependências estruturais mais profundas e mais subestimadas do setor. Torná-la visível, mensurável e gerenciável é o primeiro passo para construir uma Indústria Farmacêutica mais resiliente, mais sustentável e menos vulnerável às decisões que são tomadas em Riad e que chegam, com defasagem previsível mas com impacto real, aos orçamentos de produção de laboratórios em todos os continentes.

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