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O Cazaquistão Produz 43% do Urânio do Mundo — e a Medicina Nuclear Depende Disso | Top 50 Países Maiores Produtores

O Cazaquistão Produz 43% do Urânio do Mundo — e a Medicina Nuclear Depende Disso | Top 50 Países Maiores Produtores
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Série: Consultores, Propagandistas e Representantes


Existe uma especialidade médica inteira que depende de um elemento radioativo produzido em reatores nucleares abastecidos por urânio enriquecido para funcionar. A medicina nuclear, que realiza diagnósticos por cintilografia, PET scan e SPECT em milhões de pacientes por ano e que trata cânceres com radioisótopos terapêuticos como o iodo-131, o lutécio-177 e o rádio-223, começa sua cadeia de insumos em minas de urânio espalhadas por poucos países no mundo. O Cazaquistão, com 21 mil toneladas extraídas anualmente e 43% do total mundial, segundo a lista TOP 50 Maiores Países Produtores Mundiais, é o epicentro dessa cadeia, o maior fornecedor de urânio do planeta por uma margem que nenhum concorrente consegue reduzir de forma significativa no curto ou médio prazo.


Cazaquistão — com uma presença no ranking:


  • Urânio (#36 — 21 kt — 43% mundial — reservas: 12%)


Nenhum outro país domina a produção de um insumo tão diretamente ligado a uma especialidade médica de alta complexidade com o mesmo nível de concentração que o Cazaquistão exerce sobre o urânio. O Congo tem o cobalto, a África do Sul tem a platina, Madagascar tem a baunilha. Mas o Cazaquistão tem o urânio que alimenta os reatores que produzem os radioisótopos que chegam às seringas dos médicos nucleares que diagnosticam e tratam pacientes em hospitais de todos os continentes. Essa cadeia de causalidade, que começa nas estepes da Ásia Central e termina em um scanner de medicina nuclear em São Paulo, em Londres ou em Tóquio, é real, é crítica e é perigosamente pouco conhecida fora dos círculos especializados da física médica e do supply chain de radiofármacos.


Top 50 Países Maiores Produtores

Desafiar os profissionais da Indústria Farmacêutica, especialmente aqueles que atuam no segmento de radiofármacos e de medicina nuclear, a avaliar com precisão o grau de dependência das suas cadeias de abastecimento em relação ao urânio cazaque é um exercício que revela vulnerabilidades sistêmicas raramente discutidas com a profundidade que merecem. O radiofármaco que chega ao departamento de medicina nuclear de um hospital brasileiro em uma blindagem de chumbo, com meia-vida de horas, pronto para ser administrado ao paciente, tem uma história que começa muito antes da farmácia hospitalar e que passa, de formas que a maioria dos clínicos desconhece completamente, pelas minas de urânio do Cazaquistão.


A produção cazaque de urânio atingiu 21 mil toneladas em 2024, consolidando a posição do país como maior produtor mundial que mantém desde 2009, quando ultrapassou o Canadá e a Austrália que anteriormente dividiam a liderança do setor. A empresa estatal Kazatomprom, a maior produtora de urânio do mundo, opera dezenas de minas por lixiviação in situ em depósitos de arenito localizados principalmente nas bacias dos rios Syr Darya e Chu, no sul do país. Esse método de extração, que injeta soluções ácidas ou alcalinas diretamente no depósito e recupera o urânio dissolvido por meio de poços de bombeamento, é mais econômico e de menor impacto ambiental superficial do que a mineração convencional, mas requer monitoramento rigoroso para prevenir contaminação de aquíferos. 

Fonte: https://www.statista.com/statistics/268790/countries-with-the-largest-lithium-reserves-worldwide/


Nesse contexto de dominância produtiva, a conexão entre o urânio cazaque e a medicina nuclear exige explicação técnica que vai além da associação intuitiva entre radioatividade e saúde. O urânio extraído no Cazaquistão é enriquecido em instalações especializadas em diferentes países, convertido em pastilhas de dióxido de urânio e incorporado em elementos combustíveis de reatores nucleares de pesquisa e de produção de radioisótopos. Nesses reatores, a fissão do urânio-235 produz, entre outros produtos, o molibdênio-99, radioisótopo pai do tecnécio-99m que é o agente diagnóstico mais utilizado em medicina nuclear no mundo inteiro, responsável por mais de 80% de todos os procedimentos de medicina nuclear realizados globalmente. 

Fonte: https://ourworldindata.org/countries-critical-minerals-needed-energy-transition


Dados do mercado global de radioisótopos médicos confirmam que o tecnécio-99m, derivado do molibdênio-99 produzido em reatores abastecidos por urânio, é utilizado em mais de 30 milhões de procedimentos diagnósticos por ano em todo o mundo. Cintilografias cardíacas, ósseas, renais, pulmonares e de tireoide, além de estudos de perfusão cerebral e de pesquisa de linfonodo sentinela em cirurgia oncológica, dependem da disponibilidade contínua desse radioisótopo de meia-vida de seis horas que não pode ser estocado e que precisa ser produzido, transportado e administrado em um ciclo logístico de altíssima precisão temporal. Qualquer interrupção na cadeia de urânio que abastece os reatores produtores de molibdênio-99 se transmite, em dias, à disponibilidade de tecnécio-99m nos hospitais. 

Fonte: https://www.visualcapitalist.com/the-worlds-mineral-production-by-country/


Reposicionando a análise para os radioisótopos terapêuticos, o urânio cazaque sustenta uma cadeia ainda mais crítica para pacientes oncológicos. O iodo-131, utilizado no tratamento de câncer diferenciado de tireoide e de hipertireoidismo, o lutécio-177, aprovado para tratamento de tumores neuroendócrinos e de câncer de próstata metastático resistente à castração, o rádio-223, indicado para metástases ósseas de câncer de próstata, e o actínio-225, em desenvolvimento para terapia alfa direcionada de múltiplos tipos de câncer, são todos produzidos em reatores ou aceleradores que dependem de urânio enriquecido como combustível ou como material-alvo de irradiação. A expansão do mercado de radiofármacos terapêuticos, impulsionada pela aprovação crescente de novos agentes pela FDA e pela EMA, vai aumentar significativamente a demanda por urânio para fins médicos nas próximas décadas.


Uma dimensão que poucos gestores de supply chain farmacêutico conhecem com profundidade suficiente é a fragilidade da cadeia de produção de molibdênio-99 em escala global. Apenas um punhado de reatores nucleares no mundo, localizados principalmente na Holanda, na Bélgica, na França, na África do Sul e no Canadá, produz molibdênio-99 em escala suficiente para abastecer o mercado global de tecnécio-99m. Cada um desses reatores precisa ser abastecido regularmente com urânio enriquecido de origem cazaque ou de outros produtores. Interrupções de manutenção, incidentes operacionais ou falhas de abastecimento em qualquer um desses reatores têm impacto imediato e global na disponibilidade de tecnécio-99m, criando crises periódicas de abastecimento que já foram documentadas em múltiplos países, incluindo o Brasil, onde procedimentos de medicina nuclear precisaram ser cancelados ou remarcados por falta do radioisótopo.


Integrando essa análise ao contexto geopolítico, o Cazaquistão ocupa uma posição geograficamente e politicamente complexa, situado entre a Rússia, com que mantém laços históricos profundos, e a China, seu maior parceiro comercial crescente, enquanto busca diversificar suas relações com o Ocidente por meio de parcerias com a União Europeia e com os Estados Unidos. Essa geometria geopolítica multivectorial tem sido até agora um fator de estabilidade relativa para o fornecimento de urânio, com o Cazaquistão mantendo contratos com compradores ocidentais mesmo em períodos de tensão entre Rússia e Ocidente. Mas a dependência do transporte terrestre de urânio por rotas que atravessam território russo ou chinês cria vulnerabilidades logísticas que compradores ocidentais monitoram com crescente atenção.


Zelar pela segurança de abastecimento de urânio para fins médicos é uma responsabilidade que recai sobre múltiplos atores da cadeia, desde os governos que operam reatores de pesquisa e de produção de radioisótopos até os hospitais que utilizam os radiofármacos na ponta do processo. Para o setor farmacêutico que fabrica e distribui radiofármacos, isso significa manter relacionamentos com múltiplos fornecedores de molibdênio-99, desenvolver capacidade de produção alternativa por aceleradores de partículas que não dependem de urânio, e construir estoques estratégicos de geradores de tecnécio dimensionados para cobrir interrupções de fornecimento de uma a duas semanas sem cancelamento de procedimentos críticos.


Gerenciando o supply chain de uma distribuidora de radiofármacos que abastece hospitais em várias cidades brasileiras, enfrenta a questão mais concreta e mais urgente desta análise: como garantir a disponibilidade de tecnécio-99m para pacientes que precisam de diagnóstico cardíaco ou oncológico urgente quando o reator que abastece seu fornecedor principal entra em manutenção não programada? A resposta exige múltiplos contratos de fornecimento com produtores em diferentes reatores, protocolos de comunicação antecipada com as equipes médicas dos hospitais clientes, priorização de casos de acordo com urgência clínica e, em último caso, planos de substituição por radioisótopos alternativos com perfis diagnósticos comparáveis disponíveis em outros fornecedores.


A questão da não proliferação nuclear adiciona uma camada regulatória única à cadeia de urânio que não tem equivalente em nenhuma outra commodity de relevância farmacêutica. O urânio enriquecido utilizado em reatores de produção de radioisótopos médicos está sujeito a controles internacionais rígidos da Agência Internacional de Energia Atômica, a AIEA, que regulam sua produção, seu transporte, seu uso e seu descarte. Para o setor de saúde, esses controles são ao mesmo tempo uma garantia de segurança e uma restrição operacional que limita a flexibilidade da cadeia de abastecimento e que requer expertise regulatória específica para ser gerenciada adequadamente em cada país onde radiofármacos são produzidos ou utilizados.


Numerosas iniciativas internacionais buscam reduzir a dependência dos reatores de produção de radioisótopos médicos em relação ao urânio altamente enriquecido, convertendo os processos de produção para utilizar urânio de baixo enriquecimento, que apresenta menor risco de proliferação nuclear. Essa transição tecnológica, apoiada pelos governos dos Estados Unidos, do Canadá e de países europeus, tem avançado progressivamente nas últimas décadas e tem implicações para o mercado cazaque de urânio à medida que a demanda por urânio altamente enriquecido para fins médicos se reduz e a demanda por urânio de baixo enriquecimento cresce em proporção diferente.


Uma análise prospectiva do papel do Cazaquistão na medicina nuclear das próximas décadas precisa considerar o crescimento acelerado do mercado de radiofármacos terapêuticos, especialmente os baseados em terapia radioligante que combinam um vetor biológico direcionador com um radioisótopo terapêutico. Produtos como o lutetium-177 DOTATATE para tumores neuroendócrinos e o lutetium-177 PSMA para câncer de próstata, aprovados pela FDA e pela EMA nos últimos anos, representam uma nova geração de medicamentos oncológicos de altíssima precisão que dependem de urânio para sua produção e que têm potencial de transformar o tratamento de múltiplos tipos de câncer nas próximas décadas. O crescimento dessa classe terapêutica vai aumentar significativamente a demanda por urânio para fins médicos e vai tornar o Cazaquistão ainda mais central na cadeia de saúde global do que já é hoje.


Estratégias de segurança de abastecimento de radiofármacos para o mercado brasileiro precisam incorporar uma compreensão mais profunda da cadeia de urânio cazaque do que a que atualmente existe na maioria das organizações do setor. O Brasil opera o reator IEA-R1 no IPEN em São Paulo e o reator RMB em fase de construção em Iperó, ambos com capacidade de produção de radioisótopos para uso médico, o que confere ao país uma autonomia parcial nessa cadeia que precisa ser desenvolvida e mantida com investimento consistente. Essa capacidade doméstica, quando combinada com contratos de fornecimento internacional diversificados, é o melhor seguro disponível contra as vulnerabilidades de uma cadeia global que começa, em proporção majoritária, nas minas do Cazaquistão.


O urânio que o Cazaquistão extrai das estepes da Ásia Central percorre uma jornada extraordinária antes de chegar ao paciente. Passa por usinas de enriquecimento, por reatores nucleares, por processamentos radioquímicos complexos, por geradores de radioisótopos blindados, por logística aérea especial com rastreamento em tempo real e por protocolos de segurança radiológica rigorosos em cada hospital onde é administrado. Cada etapa dessa jornada é crítica, cada elo é insubstituível e cada ruptura em qualquer ponto da cadeia chega, em horas ou dias, ao paciente que aguarda seu exame de cintilografia ou seu ciclo de terapia com lutécio. Compreender essa cadeia com profundidade, gerenciá-la com inteligência e investir na sua resiliência com visão de longo prazo é uma responsabilidade que o setor de saúde global não pode continuar tratando como especialidade de nicho. É, literalmente, uma questão de vida.

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A China Controla 69% das Terras Raras do Mundo — e a Medicina de Alta Tecnologia Depende Disso | Top 50 Países Maiores Produtores

A China Controla 69% das Terras Raras do Mundo — e a Medicina de Alta Tecnologia Depende Disso | Top 50 Países Maiores Produtores
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Série: Consultores, Propagandistas e Representantes


Existe um grupo de dezessete elementos químicos que a maioria das pessoas nunca ouviu nomear individualmente mas que estão presentes em praticamente todos os equipamentos de saúde de alta tecnologia que fazem parte do cotidiano da medicina moderna: Lantânio, cério, praseodímio, neodímio, samário, európio, gadolínio, térbio, disprósio, hólmio, érbio, túlio, itérbio, lutécio, escândio e ítrio formam o grupo conhecido como terras raras, e a China produz 270 mil toneladas anuais desses elementos, as quais segundo a lista TOP 50 Maiores Países Produtores Mundiais,  representam 69% de todo o volume extraído no planeta, com reservas que correspondem a 37% do total mundial. Para a medicina de diagnóstico e de tratamento, essa concentração em um único país de um conjunto de elementos que não têm substitutos equivalentes em múltiplas aplicações críticas de saúde cria uma dependência estrutural que merece atenção estratégica muito mais profunda do que a que o setor farmacêutico e de equipamentos médicos habitualmente dedica a essa questão.


Top 50 Países Maiores Produtores

Nenhum outro grupo de elementos tem presença tão simultânea e tão indispensável em tantas tecnologias médicas distintas quanto as terras raras. O gadolínio está nos agentes de contraste para ressonância magnética que são administrados a dezenas de milhões de pacientes por ano. O európio e o térbio estão nos detectores de raios X digitais que equipam salas de radiologia em todo o mundo. O neodímio está nos imãs permanentes dos motores que movem os robôs cirúrgicos e nos geradores de campos magnéticos de aparelhos de ressonância magnética. O hólmio está em lasers cirúrgicos usados em urologia e em oftalmologia. O lutécio está nos radiofármacos terapêuticos de nova geração que tratam cânceres com precisão molecular. A China, com seu domínio de 69% da produção global, está em cada uma dessas tecnologias de forma que nenhuma estratégia de diversificação de curto prazo consegue eliminar completamente.


Desafiar qualquer diretor de tecnologia médica de um hospital de grande porte ou qualquer gestor de supply chain de uma empresa de equipamentos médicos a quantificar sua dependência de terras raras chinesas é um exercício que invariavelmente revela um nível de exposição que ultrapassa o que qualquer análise de risco convencional captura. A maioria das organizações de saúde sabe que depende de ressonância magnética, de tomógrafos computadorizados e de sistemas de radioterapia guiada por imagem. Poucas sabem que todos esses equipamentos dependem de terras raras chinesas de formas que não têm alternativas de substituição disponíveis no curto prazo. E quase nenhuma tem plano de contingência para o cenário em que a China decida restringir as exportações desses elementos com a mesma determinação com que restringiu o níquel indonésio e o lítio boliviano em momentos de interesse estratégico nacional.


A produção chinesa de terras raras atingiu 270 mil toneladas em 2024, consolidando uma posição de liderança que o país construiu ao longo de décadas de investimento deliberado em capacidade de extração e de processamento que deslocou praticamente todos os produtores alternativos do mercado global. Os depósitos de Mountain Pass nos Estados Unidos, de Mount Weld na Austrália e de Bayan Obo na Mongólia Interior chinesa são os mais significativos do mundo, mas enquanto os americanos e australianos reduziram drasticamente sua produção nas décadas de 1990 e 2000 por pressão de custos e de regulações ambientais, a China expandiu agressivamente sua capacidade extrativa e de processamento, chegando a produzir mais de 90% do total mundial antes de uma reorganização do setor nos anos 2010 que reduziu ligeiramente sua participação para os atuais 69%. 

Fonte: https://ourworldindata.org/countries-critical-minerals-needed-energy-transition


Nesse contexto de dominância histórica e estrutural, o gadolínio merece análise técnica aprofundada por sua posição única como elemento crítico para um dos procedimentos diagnósticos mais realizados em todo o mundo. Os quelatos de gadolínio, incluindo o gadopentetato de dimeglumina, o gadoteridol, o gadobutrol e outros agentes paramagnéticos aprovados pelas agências regulatórias internacionais, são administrados por via intravenosa em aproximadamente 30% a 40% de todas as ressonâncias magnéticas realizadas globalmente para melhorar a diferenciação de tecidos e a detecção de lesões que não seriam visíveis sem o agente de contraste. O gadolínio, como elemento paramagnético que altera o tempo de relaxação de prótons adjacentes, é o único elemento com as propriedades magnéticas adequadas para essa aplicação em concentrações seguras para uso humano, e nenhum substituto com eficácia e segurança equivalentes está disponível ou em fase avançada de desenvolvimento. A China, como maior produtora mundial de gadolínio, é a origem primária de praticamente todo o agente de contraste para ressonância magnética consumido globalmente.


Dados do mercado global de agentes de contraste confirmam que o gadolínio farmacêutico é um dos segmentos de maior valor da cadeia de terras raras, com preço unitário muito superior ao dos óxidos de terras raras industriais e com barreiras de entrada regulatórias que limitam o número de fornecedores qualificados. A purificação do gadolínio para grau farmacêutico, seguida da síntese e da purificação dos quelatos que garantem sua segurança e sua estabilidade em aplicação clínica, é um processo de alta complexidade técnica que requer investimento significativo em equipamentos e em expertise analítica. Esse processo é dominado por um pequeno número de empresas farmacêuticas especializadas em agentes de contraste, localizadas principalmente na Europa e nos Estados Unidos, mas que dependem de óxido de gadolínio de grau de pureza elevada originário predominantemente de processadores chineses. 

Fonte: https://www.visualcapitalist.com/the-worlds-mineral-production-by-country/


Reposicionando a análise para os imãs de neodímio-ferro-boro, a conexão entre as terras raras chinesas e a medicina de alta tecnologia assume uma dimensão ainda mais estrutural e de mais difícil substituição. Os imãs permanentes de neodímio-ferro-boro são os mais poderosos disponíveis comercialmente e são componentes essenciais dos sistemas de geração de campo magnético de aparelhos de ressonância magnética de alto campo, dos motores que movem os sistemas robóticos de cirurgia assistida como o Da Vinci, dos atuadores de próteses eletrônicas avançadas e dos sistemas de direcionamento de feixes em equipamentos de radioterapia de precisão como o CyberKnife e o sistema de tomoterapia. A China produz aproximadamente 90% de todos os imãs de neodímio do mundo, dominando tanto a extração do neodímio quanto o processamento e a fabricação dos imãs acabados que chegam aos fabricantes de equipamentos médicos em todo o mundo.


Uma dimensão adicional que conecta as terras raras chinesas à medicina nuclear é o lutécio, elemento que apareceu anteriormente nesta série no contexto do urânio cazaque como precursor de radiofármacos terapêuticos. O lutécio-177, radioisótopo produzido por irradiação de lutécio estável em reatores nucleares, é o componente radioativo dos radiofármacos terapêuticos aprovados para tratamento de tumores neuroendócrinos e de câncer de próstata metastático, como o lutetium-177 DOTATATE e o lutetium-177 PSMA. O lutécio estável utilizado como alvo de irraviação para produção do lutécio-177 tem na China sua principal fonte global de produção e de refino, criando uma dependência da oncologia de precisão moderna em relação às terras raras chinesas que vai muito além dos equipamentos de diagnóstico por imagem.


Integrando a perspectiva geopolítica, a China já demonstrou disposição e capacidade de utilizar seu domínio de terras raras como instrumento de política externa. Em 2010, a China reduziu drasticamente suas cotas de exportação de terras raras, gerando escassez global e aumento de preços que afetou toda a cadeia de tecnologia avançada, incluindo fabricantes de equipamentos médicos. Embora a OMC tenha declarado ilegais as restrições chinesas em 2014, o episódio demonstrou a vulnerabilidade da cadeia global de alta tecnologia a decisões unilaterais de Pequim e motivou investimentos em capacidade de produção alternativa nos Estados Unidos, na Austrália e na Europa que ainda estão em desenvolvimento e que não conseguirão substituir completamente a oferta chinesa antes de 2030 nos cenários mais otimistas.


Zelar pela segurança de abastecimento de terras raras para a cadeia de saúde exige estratégias que vão além da diversificação de fornecedores, porque a diversificação real está estruturalmente limitada pela concentração das reservas e pela defasagem de décadas que existe entre a tomada de decisão de investir em nova capacidade produtiva e o início da produção comercial de uma mina de terras raras. As estratégias viáveis incluem o desenvolvimento de programas de reciclagem de equipamentos médicos que recuperem terras raras de aparelhos descartados, o investimento em pesquisa de substitutos para aplicações específicas onde a substituição é tecnicamente possível sem perda inaceitável de performance clínica e a construção de estoques estratégicos de elementos críticos por parte de fabricantes de equipamentos médicos e de empresas farmacêuticas que utilizam gadolínio e lutécio em seus produtos.


Bernardo, gerenciando o planejamento de compras de uma empresa distribuidora de equipamentos médicos de diagnóstico por imagem no Brasil, enfrenta uma questão concreta que resume a vulnerabilidade desta análise. Os aparelhos de ressonância magnética que distribui contêm imãs de neodímio e sistemas que dependem de terras raras em múltiplos componentes, mas os contratos de manutenção e de fornecimento de peças de reposição com os fabricantes originais raramente incluem garantias específicas sobre a disponibilidade de componentes com terras raras em cenários de restrição de exportação chinesa. Construir cláusulas contratuais que enderecem esse risco específico, negociar estoques de peças críticas com os fabricantes e desenvolver relacionamentos com fornecedores alternativos de componentes que utilizem terras raras são ações concretas que reduzem a exposição sem eliminar completamente a dependência estrutural.


A indústria de equipamentos médicos global tem respondido ao risco das terras raras chinesas com uma combinação de investimentos em eficiência de uso, reduzindo a quantidade de terras raras por unidade de equipamento produzido, e de pesquisa em materiais alternativos que possam substituir elementos específicos em determinadas aplicações sem comprometimento de performance. Imãs de ferrita que substituem o neodímio em aplicações de campo magnético moderado, detectores de silício que reduzem a dependência de európio e térbio em alguns sistemas de imageamento e ligantes alternativos ao gadolínio que estão em desenvolvimento para agentes de contraste de ressonância magnética são exemplos de iniciativas de redução de dependência que mostram progresso mas que ainda estão distantes de uma substituição completa nas aplicações mais críticas.


Uma análise prospectiva da posição chinesa no mercado de terras raras precisa considerar que o país está ativamente movendo sua estratégia de simples exportador de óxidos de terras raras para produtor de componentes e de produtos acabados de maior valor agregado. Imãs de neodímio fabricados na China que chegam diretamente aos fabricantes de equipamentos médicos no lugar de óxidos que eram processados em outros países, quelatos de gadolínio farmacêutico produzidos em plantas chinesas que competem com fornecedores europeus estabelecidos e compostos de lutécio de alta pureza para uso em medicina nuclear que reduzem a dependência de processadores americanos e europeus são movimentos que estão em curso e que vão progressivamente alterar a estrutura de valor da cadeia de terras raras para a Indústria Farmacêutica global.


A China que extrai 69% das terras raras do mundo de suas minas em Inner Mongolia, em Jiangxi e em Sichuan está, com cada tonelada de óxido de neodímio, de gadolínio e de lutécio que processa e exporta, sustentando a infraestrutura tecnológica da medicina moderna de uma forma que a maioria dos pacientes que entra em um aparelho de ressonância magnética, que recebe um agente de contraste ou que é tratado com lutécio-177 nunca vai saber. Tornar essa dependência visível, mensurável e gerenciável é o imperativo estratégico que a Indústria Farmacêutica e global precisa endereçar com urgência crescente, porque o custo de ignorá-la, em termos de vulnerabilidade de abastecimento de tecnologias médicas que salvam vidas, é muito mais alto do que o custo de construir as estratégias de resiliência que esse risco exige.

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