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Bilibili e a Nova Face da Pharma: Como Cientistas, Médicos e Creators Podem Humanizar as Farmacêuticas

Bilibili e a Nova Face da Pharma: Como Cientistas, Médicos e Creators Podem Humanizar as Farmacêuticas
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Bilibili nasceu e cresceu em torno de uma lógica que deveria chamar imediatamente a atenção da Indústria Farmacêutica: pessoas podem construir autoridade digital a partir do conhecimento que compartilham. Em vez de depender exclusivamente de grandes marcas para definir quais conteúdos merecem atenção, a plataforma desenvolveu um ecossistema no qual creators possuem papel central na produção, descoberta e circulação da informação. Em 2025, a Bilibili registrou 376 milhões de usuários ativos mensais e 117 milhões de usuários ativos diariamente, números que demonstram a escala alcançada por esse modelo.



Para Pharma, o interesse não está apenas no tamanho da audiência. Está na arquitetura. A Bilibili demonstra o que acontece quando uma plataforma é organizada ao redor de comunidades e produtores de conteúdo. O usuário não encontra apenas uma marca. Encontra pessoas que explicam, ensinam, comentam, analisam e constroem relações recorrentes com seus públicos. Essa característica pode inspirar uma transformação importante na maneira como as farmacêuticas se apresentam no ambiente digital.

Durante décadas, a comunicação farmacêutica privilegiou a voz institucional. A empresa falava. A audiência recebia. O conteúdo passava por inúmeros filtros até chegar ao público. Esse modelo continua necessário em determinadas situações, especialmente quando envolve informação regulada. Mas ele não precisa ser o único. A Bilibili mostra que existe uma enorme força em permitir que pessoas com conhecimento sejam protagonistas da comunicação.

Essa ideia pode ser aplicada diretamente ao ecossistema farmacêutico. Cientistas podem explicar pesquisas. Médicos podem contextualizar conceitos. Pesquisadores clínicos podem apresentar etapas de desenvolvimento. Profissionais de Medical Affairs podem discutir ciência. Especialistas em dados podem explicar evidências do mundo real. Colaboradores podem mostrar processos de inovação. Executivos podem discutir tendências. A marca continua presente, mas deixa de ser a única voz.

Esse movimento é especialmente relevante porque o público digital está cada vez mais acostumado a acompanhar pessoas, e não apenas organizações. O creator estabelece uma relação de continuidade. A audiência aprende a reconhecer sua maneira de explicar, seus temas de interesse e sua personalidade. Quando essa lógica é aplicada com responsabilidade ao setor farmacêutico, surge uma possibilidade poderosa de humanizar a ciência.

Bilibili oferece um exemplo particularmente interessante porque seu ecossistema abriga milhões de creators. O relatório ESG de 2024 da companhia registrou aproximadamente 4 milhões de creators ativos mensalmente e cerca de 220 milhões de usuários que estudaram na plataforma. Também registrou mais de 15 milhões de usuários consumindo diariamente vídeos de ciência e tecnologia. Isso demonstra que conhecimento pode ser parte significativa da experiência de uma grande plataforma de vídeo.

A primeira aplicação para Pharma é transformar especialistas em comunicadores. Isso não significa obrigar médicos ou pesquisadores a se tornarem influencers. Significa identificar profissionais que possuem conhecimento, interesse e capacidade para explicar determinados assuntos e criar condições para que façam isso dentro de uma estrutura segura.

Um cientista que explica como uma nova terapia é pesquisada pode produzir mais compreensão do que uma peça institucional sobre inovação. Um pesquisador que explica por que ensaios clínicos possuem determinadas etapas pode tornar o processo mais transparente. Um especialista que demonstra como interpretar um gráfico pode ajudar profissionais a compreender melhor evidências. O conteúdo ganha rosto sem perder rigor.

Esse processo também pode ser estruturado como estratégia de Digital Opinion Leaders. Em vez de trabalhar somente com KOLs tradicionais em eventos e publicações científicas, a empresa pode identificar especialistas que também possuem influência em ambientes digitais. O critério deixa de ser apenas produção acadêmica e passa a incluir capacidade de comunicação, presença digital, credibilidade e relacionamento com comunidades.

Bilibili ajuda a entender por que isso é importante. Em um ambiente de creators, a influência não nasce necessariamente de uma campanha. Ela é construída ao longo do tempo. Um creator publica regularmente, responde à comunidade, desenvolve temas e se torna uma referência. Para Pharma, isso sugere que relações digitais com especialistas também podem precisar ser pensadas no longo prazo.

Uma parceria pontual pode gerar alcance. Uma relação editorial consistente pode construir autoridade.

Essa diferença muda a estratégia de contratação. A farmacêutica pode deixar de perguntar apenas “quantos seguidores esse especialista possui?” e começar a perguntar “qual comunidade ele influencia?”, “quais assuntos domina?”, “que tipo de conversa gera?”, “qual é a qualidade da audiência?” e “sua credibilidade é coerente com o objetivo científico?”.

O mesmo princípio vale para colaboradores internos. A Bilibili mostra o poder de indivíduos como produtores de conteúdo. Uma farmacêutica pode identificar profissionais que possuem conhecimento relevante e desenvolver programas de employee advocacy. Cientistas, médicos, pesquisadores, profissionais de tecnologia, inovação e operações podem participar de uma estratégia de comunicação mais humana.

Mas employee advocacy não deve significar transformar funcionários em porta-vozes improvisados. A organização precisa oferecer treinamento, políticas claras, orientação sobre confidencialidade e processos para situações de risco. O objetivo é aumentar a capacidade de comunicação, não transferir responsabilidade corporativa para indivíduos.

A inteligência artificial pode ser uma grande aliada nessa transformação. Um especialista pode participar de uma entrevista de 30 minutos e, posteriormente, a IA pode ajudar a estruturar transcrições, cortes, legendas, perguntas frequentes, versões em diferentes idiomas e conteúdos derivados. O especialista fornece o conhecimento. A tecnologia ajuda a multiplicá-lo.

Essa arquitetura é particularmente interessante para multinacionais. Um conteúdo científico produzido por um especialista global pode ser adaptado para diferentes mercados. O Brasil pode acrescentar contexto local. Outros países podem adaptar linguagem e referências. A empresa cria uma estrutura global de conhecimento com execução regional.

Bilibili também oferece uma lição sobre formato. Conteúdo de ciência não precisa parecer uma apresentação corporativa. Pode ter narrativa. Pode utilizar animações. Pode apresentar perguntas. Pode mostrar experimentos. Pode explorar histórias. Pode criar séries. A forma muda sem necessariamente alterar o rigor da informação.

Essa é uma oportunidade enorme para a comunicação farmacêutica. Em vez de começar com a marca, o vídeo pode começar com uma pergunta. Em vez de abrir com um slogan, pode começar com um problema. Em vez de terminar com uma chamada promocional, pode indicar uma fonte de informação ou um próximo passo educacional.

Essa mudança pode aumentar a qualidade da experiência digital sem necessariamente aumentar o risco. O segredo está em definir claramente finalidade, audiência e natureza do conteúdo.

Conteúdo institucional, educação em saúde, comunicação científica e publicidade de medicamentos não são a mesma coisa. A estratégia precisa diferenciar essas categorias desde o planejamento. No Brasil, as comunicações relacionadas a medicamentos estão sujeitas a requisitos específicos e precisam ser avaliadas conforme sua finalidade e conteúdo.

Humanizar, portanto, não significa abandonar compliance. Significa fazer com que compliance seja incorporado à arquitetura do conteúdo, e não utilizado apenas como etapa final de aprovação.

Outro ponto importante é a autenticidade. O público percebe rapidamente quando um especialista está apenas repetindo um roteiro corporativo. Uma estratégia de humanização precisa permitir que o profissional utilize sua própria maneira de explicar, dentro dos limites estabelecidos. A linguagem pode ser mais natural. A personalidade pode aparecer. A conversa pode parecer real.

Isso não significa permitir alegações improvisadas. O conteúdo científico continua precisando de precisão. A diferença está na forma de comunicação.

Bilibili também ajuda a pensar em comunidades de nicho. Uma farmacêutica não precisa criar conteúdo para todo mundo. Pode desenvolver comunidades em torno de áreas terapêuticas, educação científica, inovação, carreira, pesquisa clínica ou temas de interesse profissional. O valor está em reunir pessoas que possuem uma necessidade comum.

Essa lógica pode ser particularmente útil para doenças raras. Uma audiência pequena pode ser extremamente relevante. O número de visualizações pode parecer modesto, mas o valor de cada interação pode ser alto. Uma comunidade bem atendida pode se tornar uma fonte importante de aprendizado para a empresa.

Para pacientes, a lógica precisa ser ainda mais cuidadosa. A empresa pode contribuir com informação confiável e histórias humanas sobre ciência e jornada de cuidado, mas deve evitar transformar experiências pessoais de doença em instrumentos inadequados de promoção. Vulnerabilidade exige responsabilidade.

Para HCPs, o conteúdo pode avançar para níveis técnicos maiores. Um especialista pode discutir evidências. Um pesquisador pode explicar metodologia. Um profissional de Medical Affairs pode abordar conceitos gerais. A profundidade deve ser determinada pelo público, não pelo limite artificial do formato.

Isso é exatamente uma das provocações mais interessantes da Bilibili para Pharma. A plataforma demonstra que existe espaço para conteúdos que não precisam ser reduzidos a poucos segundos para conquistar atenção. Se o tema for relevante e a apresentação for boa, o público pode permanecer.

Essa lógica pode mudar o calendário editorial de uma farmacêutica. Em vez de produzir dezenas de posts institucionais, a empresa pode construir algumas grandes séries com especialistas. Cada episódio pode aprofundar uma pergunta. Cada conteúdo pode gerar derivados. A audiência passa a acompanhar uma história.

Essa estratégia também pode fortalecer SEO, GEO e AEO. Especialistas podem responder às perguntas que usuários realmente fazem. Essas respostas podem ser transformadas em vídeos, artigos, FAQs e páginas estruturadas. A autoridade humana passa a alimentar a descoberta digital.

A conexão com CRM também é relevante. Um conteúdo pode ser utilizado como ponto de entrada para uma jornada educacional. Um HCP pode consumir um vídeo, acessar um material complementar, participar de um webinar e posteriormente interagir com a empresa por outro canal. A Bilibili inspira o formato, enquanto a arquitetura omnichannel conecta os pontos.

Para SFE, isso significa que a voz digital do especialista pode complementar a força de campo. Um representante não precisa ser a única fonte de relacionamento. O profissional de saúde pode chegar à interação presencial já tendo consumido conteúdo relevante. A conversa pode começar em um nível mais avançado.

Medical Affairs também pode utilizar dados de conteúdo para identificar necessidades científicas. Perguntas recorrentes, temas de interesse e discussões entre especialistas podem revelar lacunas que merecem investigação ou educação.

A influência, nesse modelo, deixa de ser propriedade exclusiva da marca. Ela passa a ser construída por uma rede de pessoas associadas a conhecimento, credibilidade e experiência.

Essa é talvez a principal lição da Bilibili para a Pharma.

A empresa não precisa abandonar seu perfil institucional.

Precisa deixar de depender exclusivamente dele.

O futuro pode pertencer às organizações capazes de combinar marca e pessoas, ciência e narrativa, autoridade institucional e credibilidade individual.

No Brasil, isso pode começar com um programa-piloto simples: selecionar uma área terapêutica, identificar especialistas internos e externos, criar uma governança específica, desenvolver uma pequena série de conteúdos e medir não apenas alcance, mas retenção, qualidade das interações, audiência qualificada e recorrência.

Bilibili não precisa estar fisicamente presente em todos esses mercados para gerar valor estratégico.

Seu maior valor pode estar naquilo que ela revela sobre o comportamento digital.

Quando comunidades seguem pessoas que sabem explicar, a autoridade deixa de ser apenas institucional.

Ela ganha rosto.

E quando a ciência ganha rosto sem perder rigor, a farmacêutica pode finalmente parecer tão humana quanto as pessoas que trabalham diariamente para desenvolvê-la.


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Bilibili e o Paradoxo da Influência na Pharma: Quando Viralizar Não Significa Influenciar

Bilibili e o Paradoxo da Influência na Pharma: Quando Viralizar Não Significa Influenciar
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Bilibili ajuda a desmontar uma das ideias mais arraigadas do marketing digital farmacêutico: a de que quanto maior o número de visualizações, maior será necessariamente a influência. A plataforma chinesa construiu uma relação particularmente interessante entre vídeo, comunidade, creators e participação do público. Em 2025, chegou a 376 milhões de usuários ativos mensais e 117 milhões de usuários ativos diários, enquanto o tempo médio diário de utilização alcançou 112 minutos. Esses números são importantes, mas o verdadeiro aprendizado para Pharma está no tipo de relação que uma plataforma como a Bilibili consegue estabelecer entre conteúdo e audiência.



Uma publicação pode alcançar milhões de pessoas e produzir pouca influência. Outra pode atingir uma audiência muito menor e se tornar referência para uma comunidade altamente especializada. Para a Indústria Farmacêutica, essa diferença é decisiva. Um vídeo sobre uma doença rara, por exemplo, não precisa necessariamente alcançar uma audiência gigantesca para possuir valor estratégico. Se conseguir explicar uma questão complexa para profissionais relevantes, gerar discussão científica qualificada e estimular busca por informação confiável, seu impacto pode ser muito maior do que o número absoluto de visualizações sugere.

Bilibili se torna especialmente interessante porque não funciona apenas como um catálogo de vídeos. Sua proposta está associada a uma comunidade de usuários e creators, com mecanismos próprios de interação e descoberta. O resultado é um ambiente no qual o conteúdo pode continuar produzindo valor depois da visualização inicial. Comentários, compartilhamentos, recomendações, seguidores e novas produções podem prolongar a vida de uma informação. Para Pharma, isso representa uma mudança importante de perspectiva: o conteúdo não precisa terminar quando o vídeo termina.

O primeiro indicador de uma estratégia baseada em Bilibili, portanto, não deveria ser simplesmente alcance. A pergunta mais importante seria: quanto da atenção conquistada pelo conteúdo realmente se transforma em consumo qualificado? Tempo assistido, taxa de conclusão, recorrência de audiência e interação contextualizada ajudam a responder essa questão. Um profissional que permanece dez minutos em uma explicação científica demonstra um nível de envolvimento completamente diferente de alguém que abandona o conteúdo após alguns segundos.

Esse princípio pode ser aplicado ao planejamento farmacêutico em qualquer mercado. No Brasil, por exemplo, uma empresa pode produzir um conteúdo sobre uma área terapêutica e distribuí-lo em diferentes formatos. Um vídeo aprofundado pode cumprir a função de educação. Trechos curtos podem gerar descoberta. Uma página própria pode oferecer referências. Um webinar pode permitir interação. O CRM pode apoiar a continuidade da jornada dentro das regras aplicáveis. A Bilibili, nesse modelo, funciona como referência de uma lógica de conteúdo baseada em profundidade e comunidade, e não apenas como mais um canal.

A segunda lição está nos creators. A Bilibili reportou aproximadamente 4 milhões de creators ativos mensalmente em seu ecossistema, além de uma forte participação dos produtores de conteúdo na dinâmica da plataforma. Isso ajuda a explicar por que influência digital não pode ser medida apenas pelo tamanho da audiência. O creator é parte da experiência. Ele interpreta, explica, contextualiza e cria uma relação recorrente com sua comunidade.


Bilibili e o Paradoxo da Influência na Pharma: Quando Viralizar Não Significa Influenciar


Na Pharma, essa lógica encontra correspondência nos KOLs e DOLs. Um especialista médico pode possuir uma audiência relativamente pequena e, ainda assim, exercer enorme influência em determinada especialidade. O valor desse profissional não está apenas na quantidade de seguidores, mas na combinação entre autoridade científica, relevância temática, capacidade de comunicação e confiança construída ao longo do tempo.

Essa distinção muda a forma como uma farmacêutica deveria selecionar parceiros digitais. Em vez de começar pelo número de seguidores, a empresa pode avaliar relevância científica, composição da audiência, profundidade do conteúdo, qualidade das interações, frequência de publicação, capacidade didática, reputação e aderência à estratégia médica. A influência passa a ser contextualizada.

A própria dinâmica da Bilibili mostra por que profundidade pode ser uma vantagem. A empresa informa que sua comunidade possui forte consumo de conteúdos relacionados a conhecimento, tecnologia e ciência. Em seu relatório de sustentabilidade de 2024, registrou que cerca de 220 milhões de usuários estudaram na plataforma e que mais de 15 milhões assistiam diariamente a vídeos de ciência e tecnologia. Para Pharma, isso é uma evidência de que existe espaço para uma cultura digital em que aprender pode ser parte relevante da experiência de entretenimento.

Essa característica abre uma discussão importante para o conteúdo médico. Durante anos, muitas empresas tentaram transformar assuntos científicos em peças extremamente curtas para acompanhar a lógica das redes sociais. A Bilibili sugere outra possibilidade: adaptar a ciência para o ambiente digital sem necessariamente eliminar sua profundidade. A pergunta deixa de ser “como reduzir este conteúdo para poucos segundos?” e passa a ser “como tornar este conteúdo interessante o suficiente para que alguém queira continuar assistindo?”.

Essa mudança pode revolucionar a produção de conteúdo farmacêutico. Um mecanismo de ação pode ganhar uma explicação visual. Um estudo clínico pode ser apresentado por etapas. Um endpoint pode ser interpretado com exemplos. Uma controvérsia científica pode ser discutida de maneira equilibrada. Uma pergunta frequente de HCPs pode se transformar em uma série. A ciência continua rigorosa, mas a experiência de consumo se torna mais humana.

É aqui que surge o paradoxo da viralização. Um conteúdo extremamente viral pode ser superficial, emocional ou simplesmente entretenimento. Isso não significa que ele seja inadequado, mas significa que sua influência científica pode ser limitada. Um conteúdo menos viral pode ter maior capacidade de mudar entendimento porque oferece contexto, referências e explicações que permitem ao usuário construir conhecimento.

Para Medical Affairs, essa diferença é particularmente relevante. O indicador de sucesso de um conteúdo médico não deveria ser somente quantas pessoas o viram. Deve considerar se o conteúdo respondeu a uma necessidade científica real. Perguntas geradas, qualidade dos comentários, interesse em materiais complementares e recorrência de consumo podem fornecer sinais muito mais úteis.

Bilibili também apresenta uma característica interessante para essa discussão: a interação por meio de comentários exibidos durante a reprodução do conteúdo. Essa dinâmica aproxima conteúdo e comunidade e permite que a audiência participe da experiência. Para Pharma, a ideia pode inspirar formatos que estimulem perguntas e discussões, desde que o ambiente, a finalidade e a governança sejam adequados.

Uma farmacêutica poderia, por exemplo, identificar as principais dúvidas recorrentes de uma comunidade médica e utilizá-las para construir uma série de conteúdos. Cada pergunta se transforma em uma oportunidade de educação. O resultado é diferente de uma estratégia em que a empresa decide unilateralmente o que deseja comunicar.

Esse modelo também favorece Social Listening. A audiência passa a funcionar como fonte de sinais. Perguntas recorrentes podem indicar lacunas de conhecimento. Discussões podem revelar temas emergentes. Mudanças no vocabulário utilizado pelos profissionais podem indicar transformações de percepção. A tecnologia pode ajudar a organizar esses sinais, mas a interpretação precisa permanecer conectada às áreas especializadas.

A inteligência artificial amplia essa capacidade. Modelos de IA podem classificar comentários, agrupar perguntas, identificar temas recorrentes, analisar retenção, comparar desempenho de diferentes conteúdos e ajudar a descobrir quais assuntos merecem aprofundamento. O ganho real não está em automatizar a estratégia, mas em acelerar a capacidade da empresa de aprender com a audiência.

Essa aprendizagem também pode alimentar GEO, SEO e AEO. Perguntas reais feitas por usuários podem se transformar em títulos, FAQs, artigos, vídeos e conteúdos estruturados. A organização passa a produzir informação a partir da linguagem utilizada pelo público, e não apenas a partir da linguagem interna da empresa. Isso aumenta a possibilidade de seus conteúdos serem encontrados em mecanismos tradicionais e sistemas generativos.

Para o Brasil, existe uma oportunidade adicional. O mercado farmacêutico ainda pode explorar de maneira mais estruturada a combinação entre vídeo educativo, comunidades profissionais, creators científicos e inteligência de conteúdo. A experiência da Bilibili oferece um laboratório conceitual para pensar como isso poderia funcionar em ecossistemas locais.

A influência também precisa ser analisada ao longo da jornada. Um vídeo pode gerar atenção. Outro pode aprofundar conhecimento. Um terceiro pode responder objeções. Uma interação com especialista pode fortalecer confiança. Um evento pode consolidar relacionamento. Nenhuma dessas ações precisa produzir imediatamente uma conversão comercial para possuir valor.

Isso é particularmente importante para evitar o erro de atribuição. Se um HCP assistiu a um vídeo, participou de um webinar e depois conversou com um representante, não é metodologicamente adequado atribuir todo o resultado a um único ponto de contato. A influência digital pode funcionar de maneira cumulativa.

Bilibili ajuda a visualizar esse fenômeno porque seu ecossistema é construído em torno de consumo recorrente. O usuário não precisa entrar na plataforma uma única vez para consumir uma peça. Ele pode retornar ao creator, acompanhar novos episódios, comentar, compartilhar e descobrir novos assuntos. Para Pharma, essa recorrência pode ser mais valiosa do que uma explosão isolada de alcance.

Essa lógica transforma a estratégia editorial. Em vez de pensar em posts independentes, a empresa pode desenvolver temporadas de conteúdo. Uma série sobre uma doença. Uma sequência sobre interpretação de evidências. Uma coleção sobre inovação. Uma jornada para profissionais em início de carreira. O conteúdo passa a possuir continuidade.

O conceito de comunidade também muda a relação entre empresa e audiência. Uma marca que simplesmente publica fala para o público. Uma marca que constrói uma comunidade aprende com o público. A Bilibili mostra o potencial dessa segunda abordagem, embora a aplicação em saúde exija controles muito mais rigorosos.

No Brasil, qualquer estratégia envolvendo medicamentos precisa respeitar o ambiente regulatório aplicável. Conteúdos que apresentem informações promocionais, alegações sobre produtos ou informações relacionadas a medicamentos exigem avaliação apropriada. A oportunidade digital não elimina a responsabilidade científica, regulatória e ética.

Por isso, o modelo mais promissor para Pharma não é simplesmente copiar a Bilibili. É compreender seus princípios. Profundidade. Comunidade. Creators. Recorrência. Interação. Descoberta. Conteúdo baseado em interesse real.

Esses princípios podem ser aplicados a Instagram, TikTok, YouTube, LinkedIn, plataformas próprias e outros ambientes. A Bilibili funciona como uma espécie de laboratório avançado para observar uma mudança mais ampla: o valor de uma plataforma não está somente em quantas pessoas ela alcança, mas na qualidade da relação que consegue estabelecer entre pessoas e conteúdo.

A pergunta estratégica, portanto, muda.

Não é mais “quantas visualizações conseguimos?”.

É “o que aconteceu depois que alguém assistiu?”.

A pessoa permaneceu?

Aprendeu?

Comentou?

Compartilhou?

Procurou mais informações?

Passou a seguir aquele especialista?

Retornou para outro conteúdo?

Iniciou uma nova etapa da jornada?

Para Pharma, essas perguntas são muito mais próximas da verdadeira influência.

A Bilibili mostra que uma plataforma pode transformar vídeo em comunidade e comunidade em recorrência. Para a Indústria Farmacêutica global, inclusive no Brasil, essa é talvez sua principal provocação estratégica: em um mercado saturado de conteúdo, influência não será necessariamente conquistada por quem fala mais alto.

Pode ser conquistada por quem consegue fazer alguém permanecer, compreender e voltar.


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