☕DOE UM CAFÉ
A logística farmacêutica chilena está entrando em uma etapa em que informação e abastecimento precisam caminhar praticamente no mesmo ritmo. O avanço do comércio eletrônico autorizado, a digitalização da gestão de estoques hospitalares e os projetos de rastreabilidade mostram uma mudança importante: a cadeia começa a ser tratada como uma rede de dados, e não apenas como uma sequência de movimentações físicas. Para a indústria farmacêutica, isso altera a própria definição de omnichannel. O desafio deixa de ser simplesmente oferecer diferentes canais e passa a ser garantir que todos eles estejam conectados à mesma realidade de disponibilidade, demanda e capacidade logística.
Não basta que uma farmácia disponibilize medicamentos pela internet ou que um hospital possua um sistema eletrônico de estoque. Se essas informações permanecem isoladas, a organização continua operando em silos. No Chile, o Instituto de Salud Pública, ISP, autoriza e fiscaliza o comércio eletrônico de medicamentos, e exige que estabelecimentos autorizados garantam transporte seguro e condições adequadas para produtos que necessitam de requisitos específicos, incluindo manutenção da cadeia de frio. A experiência digital, portanto, já nasce condicionada à qualidade da operação física.
Durante 2026, esse movimento ganhou uma dimensão ainda mais interessante com o avanço do Sistema de Interoperabilidad da Central de Abastecimiento, CENABAST. A plataforma permite visualizar estoques e necessidades de diferentes unidades hospitalares, utilizando informações como entradas, saídas, lote, vencimento e níveis mínimo e máximo. Os dados são enviados diariamente por API para a CENABAST, criando uma conexão estruturada entre o estoque físico dos hospitais e a gestão central do abastecimento.
Realizar essa conexão muda completamente a qualidade da decisão logística. Um estoque hospitalar deixa de ser apenas uma quantidade registrada em um sistema local e passa a contribuir para uma visão integrada da rede. Se uma unidade possui excesso enquanto outra enfrenta risco de desabastecimento, a informação pode ser identificada com maior antecedência. A lógica é particularmente relevante para medicamentos, porque excesso significa também capital imobilizado, risco de vencimento e ocupação de espaço, enquanto falta pode comprometer diretamente a continuidade do tratamento.
É justamente nessa diferença entre estoque registrado e estoque realmente utilizável que o omnichannel farmacêutico encontra um dos seus maiores desafios. Saber que existem cem unidades de determinado medicamento não significa necessariamente que cem unidades possam atender qualquer pedido. É preciso considerar localização, lote, validade, status, demanda comprometida, condições de armazenamento, canal de atendimento e capacidade de transporte. A tecnologia precisa transformar quantidade em disponibilidade contextualizada. Sem essa camada, qualquer promessa digital pode estar baseada em uma fotografia incompleta da cadeia.
Longe de ser apenas uma iniciativa tecnológica, a interoperabilidade também começa a funcionar como mecanismo de eficiência operacional. A CENABAST informa que seu modelo busca reduzir trabalho administrativo manual, melhorar a utilização do espaço de armazenagem e proporcionar monitoramento contínuo de insumos críticos. A plataforma foi concebida para apoiar decisões mais oportunas diante de situações de sobreestoque ou desabastecimento.
Uma operação omnichannel pode aproveitar exatamente essa lógica para aproximar previsão e execução. Imagine um sistema que identifique uma aceleração da demanda em determinada região, observe a cobertura disponível e avalie automaticamente quais estoques podem atender aquela necessidade. Em vez de esperar a ruptura aparecer no ponto final, a empresa pode antecipar a redistribuição. A inteligência deixa de atuar depois do problema e começa a trabalhar sobre sinais de risco. Esse é um dos pontos em que analytics e inteligência artificial podem gerar impacto real na cadeia farmacêutica.
Interoperabilidade, porém, só produz valor quando existe qualidade no dado. APIs podem acelerar a transmissão de informações, mas não corrigem automaticamente cadastros inconsistentes, unidades de medida diferentes, produtos duplicados ou regras inadequadas de atualização. A empresa precisa estabelecer uma governança clara sobre o dado mestre, os eventos logísticos, os responsáveis por cada informação e os critérios para tratamento das exceções. Quanto mais integrada a cadeia, maior é o impacto de um dado incorreto propagado por vários sistemas.
Zelar pela integridade do medicamento adiciona outra camada de complexidade. O ISP determina que estabelecimentos autorizados para comércio eletrônico assegurem condições adequadas de transporte e, para medicamentos refrigerados, disponham de mecanismos capazes de garantir a manutenção da cadeia de frio. Isso significa que velocidade de entrega não pode ser analisada isoladamente. Para determinados produtos, o melhor pedido não é simplesmente aquele que chega primeiro, mas aquele que chega dentro das condições necessárias para preservar qualidade e segurança.
Boa parte da evolução chilena também passa pela rastreabilidade. Em janeiro de 2026, o ISP e a Casa de Moneda anunciaram um projeto-piloto para avaliar a viabilidade de um sistema integral de rastreabilidade de medicamentos, desde a produção até a venda. O projeto considera alternativas tecnológicas e as diferentes realidades dos participantes da indústria, com o objetivo de fortalecer transparência e segurança na cadeia farmacêutica.
Essa iniciativa é especialmente relevante para o omnichannel porque cria a possibilidade de aproximar identidade do produto e identidade do evento logístico. Em uma cadeia mais madura, não basta saber que determinada marca possui estoque. É possível evoluir para uma visão na qual o sistema reconhece quais unidades foram recebidas, armazenadas, movimentadas e disponibilizadas em cada etapa. Isso aumenta a capacidade de investigação, reduz pontos cegos e cria uma base mais robusta para decisões de qualidade, abastecimento e atendimento.
Recentemente, a própria CENABAST mostrou como essa transformação pode ganhar escala. Em sua prestação de contas de 2026, a instituição informou que, em 2025, movimentou mais de 1,65 trilhão de pesos chilenos em compras, correspondentes a 25% das compras públicas de saúde, e administrou uma cesta de 1.310 produtos. Em junho de 2026, 163 hospitais estavam em diferentes etapas de integração ao modelo de interoperabilidade, com 46 já em produção.
Nesse ambiente, o conceito de omnichannel precisa ultrapassar a fronteira do varejo. No setor farmacêutico chileno, a jornada pode envolver fabricante, distribuidor, CENABAST, hospital, farmácia, canal eletrônico e paciente. Cada participante possui uma função distinta, mas todos dependem de informação confiável sobre o medicamento. A grande oportunidade está em construir uma arquitetura na qual esses diferentes pontos possam compartilhar eventos relevantes sem necessariamente substituir todos os sistemas existentes.
Automação pode levar essa arquitetura a um estágio ainda mais avançado. A CENABAST já informou estar desenvolvendo um piloto de programação automática de compras baseado em inteligência artificial e machine learning, além de trabalhar em um sistema de tracking para sua rede de intermediación, que administra mais de 160 mil entregas mensais com aproximadamente 180 fornecedores. Esses movimentos mostram que a digitalização está deixando de ser apenas administrativa e começando a interferir diretamente nas decisões de abastecimento.
Repensar os indicadores torna-se inevitável nesse cenário. Estoque, vendas e entregas continuam importantes, mas uma operação omnichannel precisa observar também ruptura projetada, cobertura por unidade, idade do estoque, validade, nível de serviço, tempo entre eventos, pedidos em exceção, desempenho de transportadores e disponibilidade por canal. Um dashboard realmente estratégico não deveria apenas responder quanto existe. Precisa ajudar a responder onde está, para quem está disponível, por quanto tempo permanecerá disponível e qual ação deve ser tomada.
Dessa perspectiva, a digitalização do ISP também merece atenção. Em setembro de 2026, o órgão iniciou a implementação progressiva do SAFIS, plataforma destinada a concentrar solicitações, autorizações e fiscalizações que historicamente eram tratadas em diferentes sistemas. A iniciativa busca criar uma gestão regulatória mais integrada e digital, abrangendo processos relacionados a medicamentos, entre outras áreas. Isso reforça uma tendência relevante: a própria infraestrutura regulatória está se tornando mais digital, aumentando a importância da integração entre compliance, tecnologia e operações.
Em uma cadeia farmacêutica omnichannel, cada canal pode ser diferente para o consumidor, mas não deveria representar uma operação diferente para a organização. O pedido online, o atendimento hospitalar, a farmácia física e o abastecimento institucional precisam encontrar uma cadeia capaz de reconhecer estoque, demanda, produto, localização e capacidade logística de maneira consistente. Quando essa integração existe, a empresa consegue reduzir decisões fragmentadas e responder com maior precisão às mudanças do mercado.
Se a próxima fronteira do omnichannel farmacêutico é transformar informação em disponibilidade real, o Chile oferece um cenário particularmente relevante. A combinação entre comércio eletrônico regulado, interoperabilidade hospitalar, rastreabilidade, APIs, inteligência artificial e gestão integrada de estoques mostra que a logística pode deixar de ser apenas uma função de movimentação e assumir um papel central na experiência de acesso ao medicamento. O verdadeiro desafio não está em adicionar mais um canal, mas em fazer com que todos eles enxerguem, decidam e executem sobre a mesma cadeia.
👉 Siga André Bernardes no Linkedin. Clique aqui e contate-me via What's App.
Comente e compartilhe este artigo!
brazilsalesforceeffectiveness@gmail.com




Nenhum comentário:
Postar um comentário
Compartilhe sua opinião e ponto de vista: